Aprendendo sobre a Umbanda sentado na assistência
Antes de qualquer função existe um tempo de silêncio e observação. Foi sentado na assistência de um terreiro de Umbanda, entre histórias e pessoas desconhecidas, que comecei a entender — lentamente — o que aquela religião realmente significava.
A segunda visita: uma gira de Umbanda bem diferente
Depois da festa das crianças, voltei ao terreiro na semana seguinte.
A primeira visita tinha sido cheia de alegria. Era sábado, durante o dia, com muitas crianças correndo, risadas e um clima leve que parecia afastar qualquer preocupação por algumas horas.
Mas, naquela noite, encontrei um ambiente bem diferente.
Estava frio. Mais silencioso.
Aquela era uma gira de atendimento em um terreiro de Umbanda.
Enquanto as pessoas chegavam, comecei a perceber algo que talvez passe despercebido para quem visita um terreiro pela primeira vez: cada pessoa traz consigo uma história.
Algumas chegavam felizes simplesmente por estar ali.
Outras pareciam perdidas, como eu naquele momento.
E algumas carregavam no rosto um peso que denunciava problemas mais sérios.
Eu já sabia que o terreiro não era apenas um lugar de celebração. Mas naquela noite isso ficou ainda mais claro para mim. Ali também era um lugar onde muitas pessoas chegavam em busca de ajuda.
E, naquele momento, o meu medo voltou.
Era um ambiente mais sério. E aquela velha expectativa de quem cresceu ouvindo histórias sobre espíritos, assombrações e coisas sobrenaturais.
Talvez eu fosse ver algo estranho.
Talvez tomasse algum susto.
Curiosamente, com o passar do tempo, os únicos sustos que levei naquele lugar aconteceram quando esbarrava em alguém.
Nunca com nenhum espírito.
Um ambiente simples dentro de um terreiro de Umbanda
Diferente da festa das crianças, não havia nenhum preparo festivo.
A preparação era simples: limpeza do espaço, organização do ambiente e o café que, com o tempo, se tornaria quase obrigatório antes e depois das giras de Umbanda.
Aquele segundo dia era uma gira de Pretos-Velhos — uma linha muito respeitada na Umbanda, conhecida pela sabedoria, paciência e aconselhamento.
Assim como na primeira visita, alguém me explicou brevemente como funcionaria a noite.
Aos poucos comecei a perceber que existia uma organização muito clara naquele trabalho, mesmo que muita coisa ainda fosse um mistério para mim.
Hoje entendo melhor algo que, naquele momento, eu apenas intuía: o trabalho em um terreiro de Umbanda não é improvisado.
Existe uma estrutura espiritual e humana organizada em torno da caridade e do serviço.
Naquele momento, porém, eu estava apenas começando a observar.
E observar seria, por algum tempo, a minha principal função.
Quem está na assistência de um terreiro?
Com o passar das semanas, comecei a notar algo interessante na assistência do terreiro.
Sempre havia diferentes tipos de pessoas ali.
Algumas estavam apenas curiosas, tentando entender o que era aquele lugar.
Outras pareciam ansiosas para serem convidadas a participar da corrente mediúnica da casa.
Depois de algumas giras, percebi que eu mesmo começava a me encaixar nesse segundo grupo.
Também havia pessoas visitando a casa pela primeira vez, talvez procurando um lugar onde se sentissem espiritualmente acolhidas.
Outras estavam voltando depois de muito tempo afastadas.
Mas talvez o grupo mais numeroso fosse formado por pessoas em busca de ajuda.
Muitas delas eram umbandistas. Outras vinham de diferentes tradições religiosas: católicos, evangélicos ou pessoas que diziam não acreditar em nada.
Ainda assim estavam ali.
Provavelmente por indicação.
Ou porque já tinham tentado tudo o que estava ao alcance delas.
Com o tempo comecei a perceber algo que talvez seja difícil de entender fora do contexto brasileiro. Muitas das pessoas que chegam a um terreiro de Umbanda vivem realidades bastante duras. Antes de chegar ali, muitas já tinham procurado médicos, conselhos ou qualquer outra ajuda que estivesse ao alcance.
Sentado na assistência, observando tudo aquilo semana após semana, fui entendendo que ali se encontravam histórias muito diferentes.
Com o tempo percebi algo importante: a assistência de um terreiro é um lugar onde muitas histórias da vida real se encontram.
Histórias de sofrimento, esperança e tentativa de recomeço.
E sentado ali, quase sempre em silêncio, eu aprendia observando.
O primeiro passe em um terreiro de Umbanda
Naquela noite fomos convidados, um a um, a entrar na área central para receber um passe de um caboclo.
O passe na Umbanda é uma prática comum nas giras. De forma simples, é um gesto realizado pelas entidades incorporadas nos médiuns com o objetivo de ajudar a equilibrar a energia de quem busca atendimento.
Eu não sabia exatamente o que esperar.
Enquanto caminhava até lá, uma série de perguntas passava pela minha cabeça.
Será que vou sentir alguma coisa?
Será que vou ver alguma luz divina?
Será que algo sobrenatural vai acontecer?
E, confesso, havia também uma expectativa quase infantil: tomara que apareça uma entidade bem forte.
Com o tempo aprendi que essa ideia de “entidade forte” tem uma resposta bem mais simples — embora, de certa forma, delicada.
Mas isso é assunto para outro texto.
Naquele momento fiquei apenas diante do caboclo.
Não me lembro do nome da entidade nem do médium que estava incorporado. Ele apenas me perguntou se eu estava bem.
Respondi que sim.
Sem dizer quase nada, o caboclo iniciou o passe com calma.
Primeiro levantou as mãos diante do meu corpo, movendo-as lentamente como se estivesse organizando algo invisível no ar.
Depois segurou minhas mãos por um instante.
Em seguida se abaixou para tocar meus pés.
A fumaça do fumo passou diante de mim em um sopro suave, espalhando aquele cheiro característico pelo ambiente.
Por fim, estalou os dedos ao redor do meu corpo.
Quando terminou, perguntou novamente se eu estava bem.
Para todas as perguntas que eu tinha feito mentalmente antes daquele momento, a resposta foi simples.
Eu não vi luz nenhuma.
Não senti nada extraordinário.
Apenas uma sensação tranquila de bem-estar. Uma sensação de amparo.
Conversando com os Pretos-Velhos
Depois dos passes, as pessoas eram chamadas uma a uma para conversar com os Pretos-Velhos.
Mais uma vez surgiu a mesma pergunta silenciosa:
Será que agora vou sentir alguma coisa?
Essa pergunta quase nunca desaparece completamente para quem começa a frequentar um terreiro de Umbanda.
Lembro pouco daquela primeira conversa.
Naquele momento eu não estava exatamente buscando resolver um problema específico.
Minha inquietação era outra: eu queria entender aquele universo.
Talvez, sem perceber, a pergunta que eu realmente carregava fosse outra.
Será que esse era realmente o lugar e o caminho certos para mim?
Durante aquela conversa ouvi bastante sobre paciência.
Sobre aprendizado.
Sobre olhar para dentro de mim mesmo.
Paciência nunca foi o meu ponto forte.
Mas aprender sempre foi algo que me motivou.
Uma frase que ouvi naquele período ficou guardada na memória: se eu olhar para dentro de mim, encontrarei tudo o que preciso.
Na época achei que tinha entendido.
Hoje sei que era apenas o começo de um aprendizado bem mais longo.
As quintas-feiras em um terreiro de Umbanda
Com o passar do tempo, aquelas visitas começaram a se transformar em rotina.
Durante alguns meses, minhas quintas-feiras seguiram quase sempre o mesmo ritmo.
Eu saía do trabalho às seis da tarde, comia alguma coisa rapidamente e seguia direto para o terreiro.
No começo eu apenas ficava na assistência.
Observando.
Com o tempo comecei a ajudar em pequenas coisas do lado de fora, organizando o espaço ou colaborando no que fosse necessário antes da gira.
Era um aprendizado silencioso.
O primeiro passo.
Todas as giras de Umbanda começavam de forma muito parecida. As cortinas se fechavam. Vinham as orações, os cantos e as saudações às entidades e aos Orixás, enquanto o som dos atabaques marcava o ritmo. Depois de alguns minutos, as cortinas se abriam novamente.
Para quem observa de fora, talvez pareça apenas uma sequência de gestos.
Para quem observa por muitas semanas seguidas, começa a perceber que existe uma ordem e um sentido naquele trabalho.
Naquele momento eu ainda não entendia tudo.
Mas já começava a sentir que havia algo ali que fazia sentido.
O café depois da gira de Umbanda
Quando o atendimento terminava, vinham os agradecimentos.
Às entidades que trabalharam naquela noite.
Aos espíritos e as pessoas que buscaram ajuda.
Aos Orixás.
E, acima de tudo, a Deus.
Depois disso vinha um momento que, para mim, se tornaria quase tão importante quanto a própria gira.
O café.
Quase sempre perto da meia-noite, as pessoas se reuniam para conversar, rir um pouco e compartilhar impressões sobre a noite.
Ali acontecia outro tipo de aprendizado.
Mais humano. Mais cotidiano.
Era nesse momento que muitas dúvidas encontravam respostas — ou, às vezes, surgiam novas perguntas.
E, mais uma vez, eu aprendia da mesma forma que tinha começado.
Observando.
Escutando.
O primeiro lugar onde algo fez sentido
Aquelas quintas-feiras se tornaram parte importante da minha rotina por alguns meses.
Durante esse período comecei a perceber algo curioso.
Algumas pessoas apareciam por um tempo e depois seguiam seus próprios caminhos espirituais.
Outras voltavam depois de longos períodos afastadas.
Era como se cada pessoa estivesse em uma etapa diferente da própria jornada.
Hoje entendo melhor algo que, naquele momento, apenas começava a perceber.
Nem sempre o primeiro lugar onde encontramos sentido será o lugar onde permaneceremos para sempre.
A caminhada espiritual muda. Amadurece. Às vezes nos leva para outros lugares.
Mas isso não diminui a importância do primeiro lugar onde algo realmente se encaixou.
Porque foi ali que aquela fé, que antes era apenas uma ideia ou uma intuição, começou a ganhar forma.
Talvez seja por isso que a assistência de um terreiro de Umbanda seja um dos lugares mais importantes da casa.
Antes de qualquer função.
Antes de qualquer desenvolvimento mediúnico.
Existe um tempo de observar, escutar e aprender.
Foi ali, sentado entre pessoas desconhecidas, ouvindo histórias de sofrimento, esperança e fé, que comecei a entender um pouco melhor o que era a Umbanda.
E talvez também tenha sido ali que comecei a perceber algo que hoje define este espaço onde escrevo.
O terreiro de Umbanda nasce do encontro entre diferentes histórias, experiências e caminhos de vida.
De certa forma, ele é uma união de mundos.
Talvez por isso minha própria caminhada tenha começado exatamente assim: observando, em silêncio, sentado na assistência de um terreiro.
Entre mundos.
E talvez essa seja uma boa forma de continuarmos essa conversa.