Aprender observando: uma lição silenciosa da Umbanda

Observando e escutando: uma lição silenciosa da Umbanda

Sentado na assistência de um terreiro de Umbanda, comecei a perceber algo curioso: muitas vezes o aprendizado não vinha de explicações diretas, mas daquilo que se podia observar e escutar com atenção.

Uma forma diferente de aprender

Quando comecei a frequentar as giras de Umbanda, eu estava principalmente observando.

No início, como muitas pessoas que chegam a um terreiro pela primeira vez, eu pouco sabia sobre o que acontecia ali. As pessoas chegavam com suas histórias, aguardavam o atendimento espiritual e conversavam com as entidades — os espíritos que trabalham através dos médiuns durante a gira.

Na maior parte do tempo, eu não conhecia os problemas de ninguém.

Somente quando alguém se abria diretamente para mim é que eu entendia um pouco mais da situação que aquela pessoa estava vivendo. Aquilo que era dito de forma privada permanecia privado. Cada pessoa recebia sua orientação com respeito e discrição.

Mas havia algo interessante.

Em alguns momentos, durante os atendimentos, as próprias entidades traziam reflexões que pareciam destinadas a todos que estavam ali. Não porque revelassem algo pessoal, mas porque certas orientações eram compartilhadas de forma aberta, como ensinamentos que poderiam servir para qualquer um que estivesse escutando.

Foi assim que comecei a perceber algo importante.

Na Umbanda, muitas vezes se aprende simplesmente observando e escutando.

A Umbanda e o aprendizado pela escuta

Com o tempo entendi que isso não acontece por acaso.

A Umbanda, como muitas tradições espirituais, é em grande parte uma tradição oral. Muito do que se aprende não vem de livros ou de explicações formais, mas da convivência, da observação e da escuta.

Aprende-se observando o trabalho das entidades.

Aprende-se escutando aquilo que as entidades escolhem compartilhar de forma aberta durante o trabalho espiritual.

Aprende-se percebendo como os mais antigos se comportam dentro do terreiro e como sustentam o ambiente espiritual do trabalho.

Nem tudo é explicado diretamente.

Muitas vezes o aprendizado acontece aos poucos, quase silenciosamente.

E algumas coisas que escutamos em uma gira só passam a fazer sentido muito tempo depois.

Observando as entidades

Uma das primeiras coisas que comecei a notar foi a forma como as entidades se comportavam.

Cada uma tinha sua maneira de falar, de gesticular, de se aproximar das pessoas.

Os caboclos, por exemplo — espíritos associados na Umbanda à ancestralidade indígena — costumavam falar pouco. Suas palavras eram diretas, muitas vezes firmes, sempre precisas.

Havia um certo rigor em sua forma de orientar.

Às vezes bastavam poucas frases para que a pessoa entendesse exatamente o que precisava refletir ou ajustar em sua vida.

Já os pretos-velhos — entidades que se apresentam como antigos escravizados — traziam uma presença muito diferente.

Falavam com suavidade.

Suas palavras frequentemente vinham acompanhadas de histórias, pequenas reflexões ou metáforas simples sobre a vida. Muitas vezes pareciam mais interessados em ajudar a pessoa a pensar do que em oferecer respostas prontas.

E havia também o gesto do abraço.

Um gesto simples, mas que muitas vezes parecia aliviar algo que não era fácil explicar.

Os Exus, por outro lado, despertavam outro tipo de reação.

Muitas pessoas chegavam com certo receio, talvez influenciadas por ideias equivocadas sobre essas entidades. Mas o que eu via era algo diferente.

Frequentemente eram eles que traziam verdades difíceis de ouvir.

Verdades que às vezes deixavam as pessoas desconcertadas, mas que também pareciam abrir espaço para mudanças importantes.

Observando as pessoas

Com o tempo comecei a observar também as pessoas da corrente mediúnica — o grupo de médiuns que trabalha no terreiro.

Antes mesmo das entidades se manifestarem, já havia algo que chamava a atenção.

A forma como recebiam as pessoas.

Muitas vezes quem chegava ao terreiro vinha carregando preocupações, medos ou tristezas profundas. Ainda assim, era recebido com respeito, cuidado e uma simplicidade que ajudava a tornar o ambiente mais acolhedor.

Aquilo também ensinava algo.

Mostrava que o trabalho espiritual não acontece apenas através das entidades, mas também através das pessoas que sustentam o terreiro com sua presença, disciplina e dedicação.

Pequenas observações que se repetiam

Foi então que comecei a perceber algo ainda mais curioso.

Certas situações pareciam trazer sempre tipos semelhantes de orientação.

Quando alguém chegava profundamente triste ou buscando amparo, às vezes se mencionavam as forças de Oxum, associadas às águas doces.

Quando surgiam dificuldades ou desafios, era comum ouvir o nome de Ogum, ligado à força e à abertura de caminhos.

Em situações em que se buscava direção, certeza ou confiança, muitas vezes surgia a lembrança de Oxóssi.

E quando o assunto parecia tocar algo mais profundo — dúvidas sobre a vida, sobre esperança ou fé — aparecia a referência a Oxalá.

Naquele momento eu ainda não compreendia completamente o significado dessas associações nem desses Orixás.

Mas aos poucos comecei a perceber que o trabalho espiritual parecia seguir uma espécie de organização invisível.

Como se diferentes forças da natureza e da vida humana estivessem presentes ali, cada uma atuando em determinados momentos.

Um mito sobre observar

Com o tempo percebi que essa forma de aprender — observando e escutando — não era apenas algo que acontecia dentro do terreiro.

Ela aparece também em muitos mitos das tradições de origem iorubá que influenciaram várias religiões afro-brasileiras, incluindo a Umbanda.

Um desses mitos conta como Exu aprendeu observando Oxalá.

Aqui estamos falando dos Orixás Exu e Oxalá, figuras da cosmologia iorubá, e não das entidades espirituais que na Umbanda também chamamos de Exus e que trabalham nas giras.

Segundo o mito, muitas pessoas iam até a casa de Oxalá levar oferendas e visitá-lo. Ficavam alguns dias, observavam o trabalho do velho Orixá e depois partiam.

Mas partiam sem aprender nada.

Exu foi diferente.

Enquanto muitos iam e vinham, permanecendo pouco tempo, Exu ficou.

Permaneceu observando.

Durante anos ele acompanhou o trabalho de Oxalá, prestando atenção em tudo o que acontecia ali.

O mito descreve esse aprendizado de forma muito simples:

Exu não perguntava.
Exu observava.
Exu prestava atenção.
Exu aprendeu tudo.

Depois de muitos anos aprendendo dessa forma, Oxalá lhe confiou uma função importante: cuidar das passagens e das encruzilhadas por onde os caminhos se encontram.

Foi ali que Exu encontrou seu trabalho.

Quando encontrei essa história mais tarde, ela me pareceu curiosamente familiar.

De certa forma, ela lembrava algo que eu já tinha começado a perceber dentro do terreiro: que muitas vezes o aprendizado vem antes da função.

Primeiro se observa.
Primeiro se aprende.

E só depois, com o tempo, cada um encontra também seu lugar dentro do trabalho.

Mais tarde encontrei ecos dessa história em diferentes compilações de mitos iorubás, entre elas Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.

Um aprendizado que continua

Tudo isso começou enquanto eu ainda estava apenas observando.

Mas esse aprendizado não ficou preso àquele momento.

Até hoje, muitos anos depois, continuo percebendo como observar e escutar são partes importantes do caminho espiritual.

Nem sempre aprendemos apenas quando alguém fala diretamente conosco.

Muitas vezes aprendemos escutando aquilo que as entidades escolhem compartilhar de forma aberta durante o trabalho — palavras que, embora nasçam de uma situação específica, acabam trazendo reflexões para todos que estão ali.

Às vezes essas palavras fazem sentido imediatamente.
Outras vezes elas voltam à memória muito tempo depois.

Entre mundos.

E talvez aprender a escutar seja uma das primeiras formas de atravessá-los.