O dia em que fui chamado para a corrente de um terreiro de Umbanda

O dia em que fui chamado para a corrente de um terreiro de Umbanda

Depois de muito tempo sentado na assistência de um terreiro de Umbanda, observando as giras e escutando histórias que não eram minhas, chegou o dia em que alguém finalmente apontou para mim. Não foi como eu imaginava.

Esperando ser chamado

Durante muito tempo, meu lugar naquele terreiro de Umbanda era na assistência.

Eu sentava, observava, escutava.

Via as pessoas chegarem com seus problemas, suas dúvidas, suas histórias. Via as entidades trabalharem, aconselharem e, às vezes, chamarem alguém para conversar mais de perto.

Com o tempo, uma expectativa silenciosa começou a crescer dentro de mim.

Eu imaginava que, em algum momento, o caboclo chefe do terreiro apontaria para mim e pediria que me chamassem.

Mas isso não acontecia.

Na verdade, acontecia algo curioso.

Muitas vezes ele apontava… mas não era para mim.

Às vezes era para alguém sentado ao meu lado.
Às vezes para alguém algumas fileiras atrás.

Naquele instante vinha sempre a mesma reação:

“Eu?”

Não. Era outra pessoa.

Isso aconteceu várias vezes.

Até que um dia ele apontou novamente.

Depois de tantos alarmes falsos, olhei para um lado, para o outro, para trás…

E dessa vez era mesmo comigo.

Naquele instante eu ainda não sabia, mas aquele gesto simples — alguém apontando do outro lado do terreiro — acabaria marcando o início de uma parte muito importante da minha vida.

O primeiro encontro com o caboclo chefe

Quando cheguei até ele, aquela não era a primeira vez que eu falava com uma entidade através daquele médium.

Na minha primeira visita ao terreiro, quem me atendeu foi Joãozinho.

Agora era o caboclo chefe da casa.

Ele se apresentou com simplicidade:

“Eu sou o caboclo Tupinambá.”

Apesar do respeito que eu já tinha pelo dirigente espiritual da casa, para mim ele ainda era apenas mais uma entre muitas entidades trabalhadoras daquele lugar.

Só muito tempo depois eu entenderia a importância daquele encontro. Naquele momento, porém, eu ainda não sabia o quanto o caboclo Tupinambá se tornaria parte da minha própria caminhada espiritual.

Um convite — e uma tarefa

Depois de conversar comigo, o caboclo Tupinambá disse que eu poderia participar da corrente mediúnica da casa.

Mas antes disso, eu precisava cumprir uma tarefa.

Ele me pediu que participasse de doze encontros.

Quatro eram na chamada mesa de Kardec — reuniões inspiradas na tradição do espiritismo kardecista, marcadas por oração, leitura e reflexão espiritual.

Quatro eram em trabalhos de cura com os chamados mestres do Oriente, sessões dedicadas à cura espiritual de doenças físicas, onde médiuns incorporavam entidades percebidas como doutores e curadores de diferentes tradições.

E quatro eram nas giras internas de desenvolvimento mediúnico, encontros reservados aos médiuns da casa.

Além disso, havia uma condição importante.

Durante todo esse período, eu não poderia faltar a nenhuma gira pública.

Na prática, isso significava semanas inteiras organizadas em torno da vida do terreiro.

Na época eu não pensei nisso como um teste.

Hoje vejo de outra forma.

Antes de assumir qualquer compromisso espiritual, primeiro era preciso estar presente. Observar. Participar da vida da casa.

Só depois decidir se aquele caminho realmente era para você.

Descobrindo o ritmo da casa

Mais tarde, ao longo da minha caminhada espiritual — inclusive já fora do Brasil — percebi algo importante: cada terreiro tem sua própria dinâmica.

Naquela época eu ainda não sabia disso.

Para mim, aquele era simplesmente o ritmo natural de uma casa de Umbanda.

Mas o ritmo daquela casa era intenso.

Havia encontros durante a semana, trabalhos específicos, momentos de atendimento público e também encontros internos.

Na prática, isso significava que algumas semanas eu estava no terreiro duas vezes.

Na semana seguinte, três.

E assim ao longo do ano inteiro, com apenas uma pequena pausa no período de Natal.

Foi assim que comecei a entender algo que não é tão visível para quem está apenas na assistência.

Trabalhar em um terreiro não significa simplesmente aparecer em uma gira.

Significa participar da vida inteira daquela casa.

Ver o que acontece quando as cortinas se fecham

As giras internas de desenvolvimento eram as que mais despertavam minha curiosidade.

Era a primeira vez que eu via o que acontecia no centro do terreiro quando as cortinas se fechavam durante as giras públicas.

Os trabalhos começavam com a defumação do ambiente e algumas orações simples.

Depois disso, os médiuns mais antigos preparavam o espaço de trabalho em pontos específicos do terreiro.

Naquela época eu ainda não entendia exatamente o que aquilo significava.

Mais tarde aprendi que, naquele terreiro, esses médiuns eram chamados de compromissados — pessoas que já haviam passado por um processo mais profundo de iniciação dentro da própria casa.

Durante o desenvolvimento, algumas pessoas eram chamadas individualmente para trabalhar energias específicas com as entidades presentes.

Nem todos participavam diretamente.

Alguns eram chamados.

Outros apenas observavam.

E claro, eu estava ali esperando descobrir algo que me acompanhava desde as primeiras vezes sentado na assistência:

Será que eu vou sentir algo diferente?

Mas, para minha surpresa, não senti nada.

E também sequer fui chamado.

O que significa realmente trabalhar em um terreiro

Depois de tantas sessões, uma coisa ficou muito clara para mim.

Trabalhar em um terreiro não significa apenas participar dos momentos espirituais.

Significa também participar de tudo o que torna aqueles momentos possíveis.

Foi nesse período que vi algo que me marcou profundamente.

Pessoas de diferentes profissões, diferentes níveis sociais e educacionais, diferentes histórias de vida — e também diferentes orientações e identidades — trabalhando juntas sem distinção.

Antes das giras, todos ajudavam a preparar o espaço.

Organizar o terreiro.
Limpar os banheiros.
Cuidar da área externa.

Não havia tarefas pequenas.

Tudo fazia parte do mesmo trabalho.

Tudo fazia parte da mesma intenção.

A caridade.

O momento em que percebi

Ao final daquele período, algo dentro de mim já estava claro.

A Umbanda já não era apenas algo que eu observava de fora.

Foi naquele momento que entrei para a corrente mediúnica daquele terreiro de Umbanda.

Na época eu não tinha dimensão do que isso realmente significava.

Para mim, era simplesmente um passo dentro daquela casa, ao lado daquelas pessoas.

Só muito mais tarde percebi que aquele momento marcava também o início de outra coisa.

A mediunidade que começou ali não ficou presa àquele terreiro.

Com o tempo, a vida me levaria para outros lugares, outros contextos e outros encontros.

Mas, de alguma forma, aquele primeiro passo continua presente.

Hoje estou longe daquele momento — e também longe daquele terreiro — mas ainda conectado à mesma corrente que começou ali.

Entre mundos.

E talvez algumas caminhadas espirituais comecem exatamente assim.