Como conheci a Umbanda: minha primeira experiência em um terreiro de Umbanda
Este texto conta meu primeiro encontro com a Umbanda, uma tradição espiritual brasileira com raízes africanas. Hoje escrevo da Europa, onde muita gente ainda está conhecendo a Umbanda pela primeira vez. Para mim, essa descoberta começou em um terreiro no Brasil.
As primeiras impressões
Como quase todo brasileiro, desde a infância eu já tinha visto aquilo muitas vezes.
Algumas vezes na esquina de uma rua. Outras vezes perto de uma árvore, ou em uma encruzilhada.
Velas, flores, garrafas, farofa, frutas.
Na época eu conhecia aquilo apenas por um nome — quase sempre usado de forma pejorativa: macumba.
Eu não sabia o que era. Não sabia o que significava. E, para ser honesto, também nunca tinha parado para perguntar.
Como acontece com muita gente no Brasil, aquilo fazia parte da paisagem, mas não da compreensão.
Por volta dos meus 25 anos comecei a ouvir um pouco mais sobre essas práticas e, junto com isso, também algo que hoje reconheço com clareza: preconceito.
Um preconceito silencioso, aprendido sem perceber.
Com o tempo, em meio a esse preconceito, começou a surgir também uma pequena curiosidade. Foi assim que, um dia, aceitei um convite para ir a um terreiro.
A primeira vez em um terreiro de Umbanda
O primeiro dia que entrei em um terreiro de Umbanda foi em uma festa dedicada a Ibeji.
Na Umbanda, Ibeji está associado às crianças — uma das muitas expressões espirituais que fazem parte dessa tradição. Hoje esses nomes, símbolos e significados continuam trazendo novos aprendizados para mim.
Naquele dia, porém, eu não conhecia absolutamente nada disso.
Quando cheguei, o que vi parecia muito mais uma festa do que qualquer coisa que eu imaginava encontrar em um espaço religioso.
O terreiro estava cheio de pessoas felizes. Muitas traziam doces. Outras ajudavam nos preparativos.
Alguns enfeitavam o espaço. Outros organizavam mesas, pratos e bebidas.
Havia uma atmosfera de cooperação muito natural. Todo mundo parecia saber exatamente o que fazer.
Menos eu.
Eu fiquei parado, um pouco deslocado, com um pensamento insistente na cabeça:
“Melhor não tocar em nada.”
Era o medo misturado com o preconceito.
O início do ritual em um terreiro de Umbanda
Depois de algum tempo, as pessoas começaram a se organizar.
Descobri ali algo que hoje entendo melhor: havia uma diferença entre a assistência e os trabalhadores da casa.
A assistência eram as pessoas que estavam ali buscando orientação ou ajuda espiritual.
Os trabalhadores eram aqueles que tinham uma função espiritual dentro do terreiro.
Eles se posicionaram no centro do espaço. Homens de um lado, mulheres do outro.
Naquele momento aquilo me pareceu estranho.
Hoje eu entendo melhor os motivos, mas naquele dia era apenas mais um detalhe que eu não compreendia.
As cortinas foram fechadas e, junto às muitas outras pessoas sentadas ali, não era possível ver o que acontecia do outro lado.
Começaram rezas e pedidos para que Deus, os Orixás e as entidades espirituais protegessem os trabalhos daquela noite.
Em determinado momento ouvi algo que me marcou muito:
“Laroyê Exu!”
Confesso que tomei um pequeno susto.
Na minha cabeça surgiu imediatamente um pensamento:
"Mas não é esse que dizem ser o diabo?"
Mais tarde eu entenderia o tamanho do equívoco que existe nessa associação.
O som dos atabaques na gira de Umbanda
Depois das rezas, o silêncio tomou conta do espaço.
Então os atabaques começaram a tocar.
Todos começaram a cantar juntos.
E eu novamente ali, completamente perdido, sem saber se deveria cantar, ficar em silêncio ou apenas observar. As cortinas ainda estavam fechadas e não era possível ver o que acontecia no centro do terreiro.
De repente ouvi um grito forte, um brado que ecoou pelo terreiro.
Hoje sei que era o anúncio da chegada de um Caboclo, o dirigente espiritual da casa.
Naquele momento, porém, para mim era apenas uma sequência de sons que eu não conseguia compreender.
As cortinas se abriram.
Vi várias pessoas vestidas de branco e uma delas ao centro falando de forma muito diferente, abençoando os presentes e agradecendo pela presença de todos.
Em seguida ele anunciou que chamaria as crianças.
Uma felicidade inesperada
Antes da gira começar alguém havia tentado me explicar rapidamente o que aconteceria ali.
Quando me perguntaram se era minha primeira vez, respondi algo meio hesitante:
— "É minha primeira vez em um terreiro, não conheço nada."
Hoje percebo que dou quase a mesma explicação quando levo alguém pela primeira vez a um terreiro — algo que acabei fazendo muitas vezes ao longo dos anos.
Mas existe algo curioso:
Nenhuma explicação realmente prepara alguém para viver aquilo pela primeira vez.
Naquele momento minha falta de entendimento se misturava com algo muito mais forte que vinha de todos os lados:
uma alegria genuína.
A chegada das crianças na Umbanda (Ibeji)
De repente aconteceu algo que eu definitivamente não esperava.
Adultos começaram a correr pelo terreiro.
Alguns falavam como crianças. Outros faziam caretas, pediam doces, bebiam guaraná.
Alguns eram jovens como eu. Outros tinham idade para ser meus avós.
E ainda assim havia algo muito natural naquele comportamento.
As crianças tinham chegado.
Meu primeiro encontro com uma entidade de Umbanda
Antes de começarem os atendimentos, cada "criança" — ou melhor, cada médium incorporado — escolhia um pequeno espaço no chão do terreiro. Ali se sentavam, espalhavam alguns brinquedos, riscavam o chão e, de uma forma muito própria, pareciam se preparar para receber as pessoas.
As pessoas passaram a ser chamadas pela ordem de chegada até que finalmente chegou a minha vez.
Perguntaram meu nome.
— “Hugo.”
Então disseram:
— “Oi, Hugo, tudo bem? Seja bem-vindo! Você vai falar hoje com o Joãozinho.”
Joãozinho foi a primeira entidade da Umbanda com quem conversei.
A primeira coisa que ele me disse foi algo que nunca esqueci:
— “Tio! Você quer bolo?”
Antes mesmo que eu respondesse, ele pegou um pedaço de bolo com a mão e colocou direto na minha boca.
Foi tudo tão inesperado que eu simplesmente aceitei.
Depois ele perguntou por que eu estava ali.
Eu respondi que era minha primeira vez e que estava apenas conhecendo a Umbanda — uma palavra que naquela época ainda soava estranha para mim.
Ele então disse algo que até hoje ecoa na minha memória:
“Isso aqui é a Umbanda. E você vai conhecer ao longo do tempo que vier aqui.”
Naquele momento soou quase como um convite.
O início da minha caminhada espiritual na Umbanda
Naquele dia eu não sabia, mas tinha acabado de conhecer o médium que iniciaria toda a minha caminhada dentro da Umbanda — e também uma das entidades, o Joãozinho, que faria parte dessa história desde o primeiro encontro.
Ali começava, sem que eu percebesse, uma jornada que continua até hoje.
Fé, religião e caminho espiritual
Com o tempo também comecei a perceber algo que só ficou claro olhando para trás.
Durante muito tempo eu já tinha fé, curiosidade e até perguntas espirituais — mas ainda não tinha encontrado um lugar onde tudo aquilo fizesse sentido de forma concreta.
Às vezes a fé existe antes do caminho.
E quando finalmente encontramos um espaço onde ela pode ser vivida, algo se organiza por dentro.
Nem sempre esse lugar será definitivo. A própria caminhada espiritual muda, amadurece e às vezes nos leva para outros lugares.
Mas isso não diminui a importância do primeiro lugar onde algo realmente se encaixou.
Porque foi ali que aquela fé, que antes era apenas uma ideia ou uma intuição, começou a ganhar forma.
Umbanda na Europa e Umbanda na Alemanha: praticando uma tradição brasileira fora do Brasil
A Umbanda foi o lugar onde minha fé encontrou uma forma concreta de expressão. Aquela mesma fé que surgiu na época da igreja com meus pais e avós.
Foi também o início de muitas perguntas, muitos aprendizados e muitas mudanças de perspectiva.
Esse blog nasce justamente dessa caminhada.
Hoje escrevo também a partir de uma experiência particular: viver e praticar espiritualidade fora do Brasil. Atualmente moro na Alemanha, um lugar onde a Umbanda ainda é pouco conhecida e onde raramente alguém chega até ela por acaso.
Apesar disso, a Umbanda tem conquistado, pouco a pouco, o seu espaço — ainda pequeno, mas cada vez mais visível. Hoje conheço alemães que se aproximaram dessa tradição por curiosidade ou por encontros inesperados, praticando ao lado de pessoas de outros países e também de brasileiros que, curiosamente, nunca haviam tido contato com a Umbanda antes de viver fora do Brasil. Esse tipo de encontro acaba revelando algo interessante: quando uma tradição atravessa fronteiras, ela também passa a ser descoberta de formas inesperadas.
Viver essa tradição longe do Brasil muda um pouco a forma como olhamos para ela. Algumas coisas que antes pareciam parte natural do cotidiano passam a ser vistas de outra maneira quando estamos em outro país, outra cultura e outro contexto religioso.
Parte da proposta deste espaço é justamente compartilhar essas reflexões: o que significa carregar uma tradição espiritual brasileira para outros lugares do mundo, como ela é compreendida fora do Brasil e como essa caminhada continua se transformando ao longo do tempo.
A minha própria caminhada começou no Brasil, atravessou culturas, tradições e fronteiras — e hoje continua aqui, na Europa.
Entre mundos.
E talvez essa seja uma boa forma de começar essa conversa.