Quando entrei, percebi que já existia algo em movimento

Quando entrei, percebi que já existia algo em movimento

Quando fui chamado para a corrente mediúnica na Umbanda, achei que algo dentro de mim mudaria imediatamente. Que eu entenderia melhor o que estava acontecendo — ou que, de alguma forma, tudo faria mais sentido a partir dali.

Um passo para dentro, mas não exatamente como eu imaginava

Depois de ser chamado para a corrente mediúnica — o grupo de médiuns que trabalha junto durante a gira na Umbanda — naquele momento em que isso finalmente aconteceu, eu imaginei que algo mudaria de forma imediata.

Como se, de alguma maneira, eu tivesse atravessado uma linha clara entre dois lugares.

Mas não foi assim.

O espaço, na verdade, mudou bastante.

Eu saí da assistência — onde antes observava — e fui para a parte central do terreiro, onde tudo acontecia.

Um lugar mais exposto.
Mais próximo.
E, de certa forma, mais difícil de se esconder.

E foi justamente ali que algo começou a se mostrar de outro jeito:

Eu estava mais perto de tudo…
mas entendia menos do que imaginava.

O que acontecia antes da gira começar

Uma das primeiras coisas que comecei a notar não tinha relação direta com a gira — a sessão espiritual em si.

Acontecia antes.

Chegávamos mais cedo e, sem que ninguém precisasse dizer muita coisa, cada um começava a fazer algo dentro do terreiro de Umbanda.

Alguém varria o chão.
Outro organizava as cadeiras.
Alguém cuidava de um canto que talvez nem fosse usado naquele dia.

Não parecia uma tarefa distribuída.
Nem uma obrigação.

Era mais como se todos soubessem, de alguma forma, que aquilo também fazia parte.

Ao mesmo tempo, havia algo curioso: ninguém parecia ser forçado a nada.

Cada um encontrava o seu jeito de participar.
E isso também parecia ser respeitado.

Sem perceber, todos pareciam ajudar a manter algo que eu ainda não sabia nomear.

Talvez isso tenha começado a fazer sentido justamente porque, por muito tempo, meu lugar ainda era outro — aquele de observar em silêncio, sentado na assistência, tentando entender o que estava acontecendo e, aos poucos, percebendo que observar e escutar também eram formas de participação.

Ali, eu ainda não pensava muito nisso.

Mas aquilo começou a me chamar atenção.

Não havia “quem faz” e “quem não faz”

Com o tempo, fui percebendo algo que, no início, passou quase despercebido.

Não havia uma separação clara entre quem fazia e quem não fazia.

Não existia um grupo responsável pelo cuidado do espaço enquanto outros apenas observavam.

Todos participavam.
Sem distinção.
Sem que isso precisasse ser dito.

E, talvez mais curioso ainda, isso acontecia sem apagar o ritmo de cada um.

Cada um se movia no seu próprio tempo.
E, de alguma forma, isso não parecia interferir no que estava acontecendo.

Eu ainda não saberia explicar.

Mas havia ali uma lógica diferente da que eu conhecia fora dali.

Uma função que eu ainda não sabia nomear

Se, no plano físico, as coisas começaram a fazer um pouco mais de sentido, no plano espiritual ainda era tudo mais nebuloso para mim.

Durante a gira, cada pessoa dentro da corrente mediúnica parecia ocupar um lugar.

Mas esse “lugar” não era exatamente um cargo.
Nem uma função no sentido comum.

Era algo mais sutil.
Mais difícil de descrever.

Foi também nesse período que comecei a perceber que existiam diferentes formas de trabalho acontecendo dentro do mesmo espaço — algo que, para quem vê de fora, pode parecer confuso no início, mas que faz parte da própria forma como a Umbanda se organiza.

Algumas dessas formas eu reconhecia mais facilmente. Outras me eram completamente novas.

Certas presenças começaram a se tornar familiares — entidades que se manifestavam através dos médiuns — enquanto outras eu ainda não conseguia compreender.

E, aos poucos, nomes que antes eram apenas palavras começaram a ganhar outro peso.

Mas, naquele início, tudo isso ainda era fragmentado para mim.

Mais sensação do que entendimento.

Quando algo começa a fazer eco

Na época, eu ainda não conhecia esses mitos.
Mas algo ali já me parecia familiar.

Não como uma ideia clara.
Nem como um entendimento.
Mas como se algo ali já estivesse acontecendo antes de eu entender o que era.

Mais como uma sensação difícil de explicar —
de que aquilo que acontecia ali não dependia só de quem sabia mais…
ou de quem parecia mais preparado.

Um mito que fala de completar, não de substituir

Foi só mais tarde — já longe dali, vivendo em outro país — que tive contato com alguns desses mitos dos orixás, através de leituras como Mitologia dos Orixás.

Em um deles, Orunmilá enfrenta uma situação que não consegue resolver sozinho.

Ele observa.
Ele compreende.
Mas aquilo não se move.

É quando Exu entra que algo muda.

Não tomando o lugar.
Mas completando o que faltava.

E, olhando para trás, isso começou a se aproximar do que eu via no terreiro.

Ninguém parecia fazer tudo.
Mas, ainda assim, as coisas aconteciam.

Como se o movimento dependesse justamente desse encontro.

Um mito que revela força onde não se espera

Em outro momento, um mito fala de uma cidade inteira enfrentando a falta de água.

Uma situação grande demais.
Coletiva demais.

E, ainda assim, a solução não vem de quem parecia mais preparado.

Vem dos Ibejis.

Duas crianças.

Não como exceção.
Mas como algo que simplesmente se revela.

E isso também começou a tocar algo que eu tinha percebido ali, mesmo sem entender.

Que existe uma força que não aparece onde se espera.

E que, muitas vezes, é justamente ela que muda o rumo das coisas.

Sustentar algo que não se vê

Talvez essa tenha sido uma das primeiras mudanças mais silenciosas dentro de mim.

A ideia de que fazer parte da corrente mediúnica não era apenas “estar ali”.

Era sustentar.

O espaço.
O ambiente.
O que acontecia durante a gira.

Mesmo sem entender completamente como.
Mesmo sem conseguir explicar.

E, ao mesmo tempo, isso não parecia anular a individualidade de ninguém.

Pelo contrário.

Havia algo ali que permitia que cada pessoa estivesse no seu próprio momento… enquanto ainda fazia parte de algo coletivo.

Com o tempo, isso foi ficando mais claro.

Mas, naquele início, era só uma sensação.

Como perceber que existe uma estrutura invisível… antes mesmo de conseguir enxergá-la.

No fundo, talvez tenha sido ali — e também só muito depois — que comecei a entender que o trabalho não começava quando a gira começava.

E nem terminava quando ela acabava.

Aquilo já estava em movimento muito antes de eu entrar.

Entre mundos.

E talvez seja assim que algumas coisas só fazem sentido quando já estamos em outro lugar.