Quando me colocaram à frente da cromoterapia no terreiro

Quando me colocaram à frente da cromoterapia no terreiro

Depois de algumas giras em um terreiro de Umbanda, eu ainda estava tentando entender onde eu me encaixava. Foi nesse contexto que fui colocado à frente da cromoterapia no terreiro.

O momento em que isso aconteceu

Naquele momento, eu ainda estava tentando entender onde eu me encaixava dentro do terreiro.

Eu já percebia que cada pessoa dentro da corrente mediúnica — o grupo de médiuns que trabalha espiritualmente durante a gira — tinha uma função.

Um jeito próprio de contribuir.

Mas isso ainda era algo que eu via de fora.

Até que, em uma dessas noites, isso mudou.

De forma simples.

O caboclo chefe da casa, o caboclo Tupinambá, me chamou e disse que gostaria que eu ficasse à frente da cromoterapia.

Não soou como uma ordem — mas também não parecia exatamente uma escolha.

Um lugar que já existia dentro do terreiro

Eu ainda não entendia muito bem o que aquilo significava.

Mesmo assim, ele começou a me explicar como tudo funcionava.

Explicou o objetivo daquele espaço.

Como as pessoas chegariam até ali.

O que deveria ser feito.

Era um trabalho de cuidado dentro do terreiro.

Um complemento ao que acontecia na gira de Umbanda.

Logo depois, avisou as entidades presentes — uma a uma — que, se precisassem de ajuda na cromoterapia, poderiam me chamar.

Tudo aconteceu com naturalidade.

Como se aquilo já estivesse organizado.

Como se o lugar já existisse — e eu estivesse apenas chegando nele.

O primeiro dia na cromoterapia do terreiro

A cromoterapia acontecia em uma sala separada do terreiro.

Enquanto a gira seguia do lado de fora, com cantos e atendimentos, ali dentro o ambiente era outro.

Mais silencioso.

Mais direto.

Na primeira vez que alguém foi encaminhado, o caboclo Tupinambá veio comigo.

Outra pessoa também veio.

Era quem iria me auxiliar naquele momento.

Entramos juntos.

A pessoa se deitou na maca.

Nós posicionamos as luzes.

E começamos.

Enquanto as luzes estavam ligadas, fazíamos o passe.

E ali veio uma sensação muito clara:

eu não sabia exatamente o que fazer.

Eu estava completamente inseguro.

Tentando repetir o que tinha visto.

Tentando não errar.

Pensando, de alguma forma, que eu precisava fazer algo “bom” por aquela pessoa.

Pensar coisas positivas.

Manter uma intenção de cuidado.

Como se aquilo pudesse, de alguma forma, chegar até ela.

Não como uma técnica clara.

Mais como uma tentativa.

E, para alguém acostumado a entender antes de fazer, aquilo não era simples.

Não havia uma explicação clara para o que estava acontecendo.
Nem para o que eu deveria sentir.
Nem para o que eu estava fazendo.

Ainda assim, eu precisava continuar.

Alguns minutos depois, o caboclo Tupinambá se retirou.

Sem dizer nada.

Sem dizer se estava certo ou errado.

E eu fiquei.

Com a pessoa à minha frente.

E com a sensação de que agora eu precisava continuar.

A pessoa permaneceu deitada.

Eu acendi algumas outras luzes, seguindo o que tinha sido orientado.

Segui como podia.

Até que, em algum momento, o atendimento terminou.

Apaguei as luzes.

A pessoa se levantou.

Agradeceu.

E saiu.

E aquilo seguiu comigo.

Sem muita clareza.

Mas seguiu.

O que veio depois na cromoterapia do terreiro

Naquela mesma noite, outras pessoas vieram.

Duas, talvez três.

E, nas giras seguintes, isso continuou.

Sempre algumas pessoas eram encaminhadas para a cromoterapia.

E, a cada vez, eu repetia o processo.

Ainda com dúvida.

Ainda sem entender tudo.

Mas já um pouco menos perdido do que antes.

Com o tempo, aquilo foi ganhando um certo ritmo.

A pessoa deitava na maca.

Eu posicionava as luzes.

E o trabalho começava.

De forma simples, a cromoterapia no terreiro utilizava luzes coloridas aplicadas em diferentes partes do corpo — cabeça, região do tronco, parte mais baixa do abdômen.

Era uma forma de cuidado.

Enquanto as luzes estavam ligadas, também acontecia o passe.

Um gesto feito por mim e por quem estivesse ali comigo.

Quase não havia conversa.

As pessoas chegavam já atravessadas por alguma questão.

E aquele era um momento mais silencioso.

Mais interno.

Eu ainda não sabia exatamente o que estava fazendo.

Mas, aos poucos, fui aprendendo a continuar mesmo assim.

Talvez aprender, ali, tivesse mais a ver com permanecer do que com entender.

Quando a confiança começou a mudar

Nos primeiros dias, as entidades indicavam as cores e os pontos onde elas deveriam ser aplicadas.

Isso trazia uma certa segurança.

Havia uma orientação clara.

Até que, em algum momento, isso mudou.

Eu era chamado até a entidade.

Ela me dizia qual era o tema.

E, em seguida, completava:

“Escolhe as cores.”

Depois disso, a pessoa era encaminhada comigo.

Sem explicação.

Sem orientação.

E isso foi se repetindo ao longo do tempo.

E, a cada vez, a sensação era parecida.

Eu não sabia exatamente o que cada cor representava.

O que eu tinha eram pequenas associações.

Coisas que fui guardando dos atendimentos anteriores.

Padrões que comecei a perceber.

Mas nada muito claro.

Nada estruturado.

E, ainda assim, precisava escolher.

E, ali, não havia muito espaço para tentar entender antes.

Era mais sobre sentir… e seguir.

Algo próximo de intuição.

Que, para mim, não era algo natural.

Eu tentava encontrar alguma lógica.

Mas, ali, ela nem sempre aparecia.

O tempo passando

As giras de Umbanda foram se repetindo.

Uma semana depois da outra.

E, aos poucos, aquele espaço foi deixando de ser completamente estranho.

Não porque tudo passou a fazer sentido.

Mas porque eu fui me acostumando a estar ali.

A repetir os mesmos gestos.

A lidar com as mesmas dúvidas.

A sustentar aquele espaço sem precisar resolver tudo.

E sem muito retorno claro de como eu estava indo.

E isso também era desconfortável.

Não havia uma forma clara de medir se aquilo estava certo.

Para alguém acostumado a buscar esse tipo de resposta, isso fazia falta.

Ao mesmo tempo, havia um certo afastamento.

Enquanto a gira acontecia, com cantos, atendimentos e movimento no terreiro, eu muitas vezes estava em outra sala.

Não via o que acontecia.

Não acompanhava tudo.

Era como estar dentro — e fora — ao mesmo tempo.

O que só fui entendendo depois

Naquela época, muita coisa ainda não fazia sentido.

Com o tempo, algumas conexões começaram a aparecer.

Primeiro vieram as cores.

Depois, ideias que eu ainda conhecia pouco, como os chakras.

E só mais tarde certas relações começaram a fazer mais sentido para mim —
inclusive com temas que também aparecem ligados aos Orixás dentro da Umbanda.

Mas nada disso estava presente no começo.

No começo, era só prática.

Repetição.

E uma tentativa constante de estar à altura de algo que eu ainda não compreendia completamente.

E, talvez, parte do que foi se construindo ali não tenha vindo de entender mais —
mas de tentar controlar menos.

O lugar que vai se formando

Com o tempo, a ideia de “ter um lugar” deixou de ser algo que eu observava nos outros.

Passou a ser algo que eu começava a viver dentro do terreiro.

Mas não como algo fixo.

Nem como algo completamente claro.

Era mais como um lugar que ia se formando enquanto eu estava ali.

E, talvez sem perceber, algo também foi mudando.

Não como uma certeza.

Mas como uma forma diferente de estar ali.

Entre mundos.

E talvez esse seja só mais um desses lugares que a gente aprende a reconhecer depois que já atravessou.