O que é o passe na Umbanda? Uma experiência que levou tempo para entender

O que é o passe na Umbanda? Uma experiência que levou tempo para entender

O passe foi uma das práticas que mais vi se repetirem em um terreiro de Umbanda antes de realmente começar a entendê-lo. Neste texto, reflito sobre o que é o passe na Umbanda, como ele aparece no terreiro e o que ele pode — ou não — despertar em quem o recebe.

No começo, eu não sabia o que esperar do passe na Umbanda

Quando comecei a frequentar um terreiro de Umbanda, havia muitas coisas que eu via acontecer sem compreender direito.

Algumas me chamavam atenção de imediato. Os cantos. Os atabaques. A presença das entidades. O modo como as pessoas chegavam carregando suas histórias e, muitas vezes, saíam um pouco diferentes dali.

Outras eu demorava mais para entender.

O passe era uma delas.

Eu via aquilo acontecer durante as giras — as sessões espirituais da Umbanda — e entendia muito pouco do que estava acontecendo. Em alguns momentos, existia até um espaço mais claro para isso dentro do trabalho espiritual. Em outras ocasiões, ele aparecia de outro modo, às vezes durante o próprio atendimento, às vezes acompanhado de recursos que também faziam parte daquele cuidado, como um chocalho nas mãos da entidade.

Ou seja, o passe na Umbanda não aparecia sempre da mesma forma.

Talvez por isso eu tenha levado tempo para perceber melhor o seu lugar.

Naquele começo, minha expectativa ainda era meio confusa. Como acontece com muita gente quando entra em contato com uma tradição espiritual desconhecida, eu imaginava que aquilo precisaria ser sentido de forma muito clara para ser importante.

Talvez um arrepio.
Talvez uma emoção forte.
Talvez alguma sensação difícil de negar.

Eu ainda não sabia que muitas das coisas mais importantes ali não chegavam desse jeito.

O que é o passe na Umbanda

Se eu tentasse explicar hoje de forma simples, eu diria que, na Umbanda, o passe costuma ser entendido como um trabalho de transmissão, limpeza, reorganização ou equilíbrio energético.

Essa é, pelo menos, a forma mais próxima de nomear aquilo que eu fui vendo acontecer ao longo do tempo.

Na prática, o passe pode assumir formas diferentes de uma casa para outra e de um momento para outro. Às vezes vem através do gesto das mãos próximas ao corpo. Às vezes aparece dentro de uma oração, de um atendimento ou de um movimento mais breve da entidade. Em alguns contextos, ele também dialoga com influências mais próximas do espiritismo, que ajudaram a moldar a forma como esse tipo de trabalho espiritual ganhou espaço no Brasil.

Mas, para mim, o mais importante nunca foi encontrar uma definição exata.

Foi perceber como aquilo se manifestava dentro da vida do terreiro.

O passe também fazia parte do ritmo da casa. Estava presente no acolhimento, no atendimento e em certos momentos em que a pessoa ainda nem sabia direito como colocar em palavras o que estava sentindo.

A primeira vez que recebi um passe na Umbanda

Quando recebi um passe pela primeira vez, eu ainda estava olhando para tudo aquilo com olhos muito novos.

Eu queria entender.

Talvez até mais do que viver.

Hoje percebo isso com certa ternura. Eu ainda estava naquela fase em que parecia necessário compreender tudo logo, como se a experiência só pudesse ter valor depois de ganhar uma explicação clara.

Naquele momento, a expectativa de que algo acontecesse era maior do que aquilo que eu de fato percebia.

Eu esperava alguma coisa mais evidente. Algo que se impusesse de forma clara e me fizesse pensar imediatamente: agora eu entendi.

Mas o que vinha, muitas vezes, era bem mais sutil.

Uma sensação de bem-estar.
Uma sensação de calma.
Algo difícil de nomear com precisão.

Só que nem sempre de forma intensa.

Muitas vezes isso aparecia de maneira discreta, quase imperceptível.

E talvez justamente por isso eu tenha levado um tempo para reconhecer a importância daquele momento.

Com o passar das giras, fui percebendo que o passe nem sempre chega como algo marcante no sentido mais óbvio da palavra. Às vezes ele parece apenas baixar um pouco o ruído por dentro. Às vezes não traz nada que se possa descrever com facilidade, mas ainda assim deixa uma sensação de maior quietude.

O que se sente durante um passe na Umbanda

Acho importante dizer isso de forma simples, porque muita gente talvez se aproxime desse tema esperando sentir algo muito claro.

E isso pode acontecer.

Algumas pessoas sentem calor. Outras, leveza. Outras, emoção. Outras dizem perceber sensações mais nítidas no corpo ou mudanças mais claras no estado de espírito.

Algumas também podem sentir a aproximação de seus próprios guias espirituais, que em muitos momentos podem auxiliar essa troca energética e esse trabalho de equilíbrio.

Mas essa percepção não depende apenas do tipo de pessoa.

Ela também parece depender do momento.

Uma mesma pessoa pode sentir algo muito claramente em um dia, quase nada em outro e, depois, voltar a perceber alguma coisa de novo em outra ocasião.

Talvez porque o estado em que se chega, o tipo de trabalho espiritual daquele dia e o que está acontecendo por dentro da própria pessoa também façam diferença.

Por isso, eu teria dificuldade em falar do passe como se ele produzisse sempre o mesmo efeito ou como se precisasse ser percebido de forma imediata para ter valor.

Na minha experiência, não é assim.

Às vezes a pessoa percebe algo na hora.
Às vezes não.
Às vezes o efeito parece mais emocional.
E às vezes a mudança só fica mais clara depois.

Quem pode aplicar o passe na Umbanda

O passe também podia acontecer através das pessoas da casa, e não apenas quando uma entidade o realizava.

Isso já ficava visível para mim em outros contextos do terreiro, como nas sessões da mesa kardecista, em que as pessoas também aplicavam passe. Mais tarde, isso se tornou ainda mais concreto quando eu passei a atuar na cromoterapia dentro da casa. Ali, o passe também fazia parte do trabalho que eu realizava. Durante muito tempo, ele foi uma das ferramentas que eu utilizava naquele espaço de cuidado.

Isso também mudou a forma como eu passei a enxergá-lo.

Até então, eu olhava muito para o passe como algo que eu recebia, observava ou percebia nas consultas. Depois, ele também passou a fazer parte daquilo que eu fazia.

E isso muda a forma de entender as coisas.

Não porque eu tenha passado a dominar alguma explicação final sobre o passe. Mas porque ele deixou de ser apenas algo visto de fora. Passou a ser também um gesto que eu precisava sustentar com atenção, intenção e responsabilidade.

Ao mesmo tempo, para mim nunca foi simples separar completamente o que vinha apenas da pessoa que aplicava o passe e o que podia também estar sendo auxiliado espiritualmente.

Em muitos momentos, me parecia claro que esse auxílio não dependia necessariamente de incorporação. Os guias também podiam se aproximar e participar daquele trabalho mesmo sem se manifestarem dessa forma mais visível. E isso, como tantas outras coisas dentro do terreiro, parecia variar conforme o momento, a necessidade e o tipo de cuidado envolvido.

Na cromoterapia, isso ficava ainda mais evidente. O passe não aparecia isolado. Ele acontecia junto daquele outro cuidado, dentro de um ambiente mais silencioso e mais recolhido, onde eu muitas vezes seguia mais pela presença, pela concentração e pela tentativa sincera de ajudar do que por qualquer certeza muito bem formulada.

Talvez por isso eu tenha aprendido a olhar para o passe menos como um gesto que se explica facilmente e mais como algo que acontece dentro de um contexto espiritual mais amplo.

Como o passe atua no trabalho espiritual da Umbanda

Às vezes o passe também não aparece sozinho.

Muitas vezes ele parece preparar alguma coisa.

Às vezes prepara a pessoa para um atendimento espiritual.
Às vezes ajuda a diminuir a agitação com que alguém chega.
Às vezes parece abrir espaço para que a conversa com a entidade aconteça de outra maneira.
Às vezes vem depois, como quem ajuda a assentar algo que foi mexido durante aquele encontro.

Não gosto muito de falar disso de forma rígida, porque a vida do terreiro quase nunca cabe bem em esquemas fechados.

Mas, olhando para trás, essa percepção foi ficando mais clara em mim: o passe muitas vezes participava daquele movimento mais amplo de acolhimento.

Nem sempre como protagonista.

Mas como parte importante do trabalho.

Em alguns contextos, ele parecia quase funcionar como uma primeira aproximação. Em outros, como um assentamento posterior. E talvez por isso eu o associe tanto à ideia de passagem: não apenas porque se faz com as mãos ou com outros recursos, mas porque muitas vezes acompanha a pessoa de um estado a outro.

Da agitação para alguma calma.
Do peso para algum alívio.
Da confusão para uma presença um pouco maior em si mesma.

Como hoje eu entendo o passe na Umbanda

Hoje entendo melhor por que o passe me chamou atenção tão cedo, mesmo quando eu ainda não sabia o que fazer com ele.

Ele podia aparecer de formas diferentes, através de entidades, através de pessoas da casa, em momentos mais visíveis ou mais discretos. Mas havia algo nele que sempre voltava: a tentativa de ajudar a reorganizar alguma coisa.

Talvez isso também diga algo sobre a espiritualidade de maneira mais ampla.

Nem tudo o que nos toca espiritualmente chega como ruptura.

Às vezes chega como pausa.
Às vezes chega como presença.
Às vezes chega como um gesto repetido muitas vezes, até que um dia percebemos que ele vinha dizendo alguma coisa desde o começo.

Ainda hoje, eu não sinto necessidade de transformar o passe em uma explicação fechada.

Para mim, ele continua sendo uma dessas experiências que a gente entende melhor vivendo, observando, recebendo — e, em certos momentos, também oferecendo.

Talvez eu pudesse dizer, de forma bem simples, que o passe é um trabalho espiritual que pode ajudar a trazer mais presença e algum reequilíbrio.

Mas mesmo essa frase ainda me parece pequena diante do que ele pode significar em certos momentos.

Entre mundos.

E talvez algumas coisas façam sentido justamente porque continuam deixando espaço para ser vividas antes de serem totalmente explicadas.