Quando fui chamado para cambonar a entidade chefe do terreiro
Naquela noite, achei que estava apenas deixando uma função dentro do terreiro de Umbanda. Só muito depois percebi que alguns dos passos mais decisivos da vida começam justamente quando ainda não nos sentimos prontos para eles.
Há chamados que chegam antes do preparo
Na hora, a gente nem sempre percebe.
Alguns momentos chegam sem anúncio. Não parecem grandiosos. Não parecem
decisivos. Parecem apenas mais uma mudança dentro de algo que já vinha
acontecendo.
Só depois mostram o tamanho que tinham.
Hoje vejo assim o momento em que fui chamado para cambonar a entidade chefe do terreiro de Umbanda.
Na Umbanda, o cambono é quem auxilia a entidade durante a gira,
acompanhando o trabalho, organizando o que for necessário e sustentando, de
forma muito prática, parte do que acontece ali. Neste texto, conto como foi
ser chamado para cambonar a entidade chefe do terreiro e por que isso mudou a
minha relação com a responsabilidade espiritual.
Naquele momento, eu ainda não saberia dizer isso com tanta clareza. Eu só
sentia que alguma coisa estava mudando. Mas ainda não entendia que aquele
seria um desses momentos em que a vida coloca uma responsabilidade nas nossas
mãos antes que a gente se sinta pronto para sustentá-la.
Quando a cromoterapia se encerrou
Naquela época, eu já estava à frente da cromoterapia da casa.
Era um trabalho pelo qual eu tinha criado apego.
Mesmo com todas as dúvidas do começo, aquele espaço tinha se tornado
importante para mim. Eu já tinha aprendido a gostar dele. E, de certa forma,
também tinha aprendido a me reconhecer ali.
Por isso, quando o Caboclo Tupinambá disse que a cromoterapia ficaria fechada
naquele dia e que, dali em diante, eu não estaria mais à frente daquele
trabalho, a primeira sensação não foi de entendimento.
Foi de dúvida.
Talvez até de perda.
Minha reação interior foi imediata, ainda que silenciosa: qual seria então o
meu papel agora? Eu tinha feito alguma coisa errada? Por que aquele ciclo
estava se encerrando?
Hoje eu vejo com mais tranquilidade que não se tratava de erro.
Era apenas o fechamento de uma etapa para que outra pudesse começar.
Mas, naquele momento, eu ainda não tinha como enxergar assim.
O que significa cambonar a entidade chefe na Umbanda
Logo depois, o Caboclo Tupinambá me pediu que eu o ajudasse durante aquela
noite.
Pediu também que a pessoa que já estava ao lado dele me auxiliasse naquele
começo.
Foi assim que, naquela gira de Umbanda, eu cambonei o caboclo chefe e
também o preto-velho Pai Joaquim da Guiné, que trabalhava com o mesmo médium
dirigente da casa.
Na Umbanda, o cambono é quem auxilia a entidade durante a gira,
acompanhando o trabalho, organizando o que for necessário e sustentando, de
forma muito prática, parte do que acontece ali. Mas eu começava a perceber que
cambonar a entidade que chefia a casa era outra coisa.
Não porque ela fosse melhor do que as outras.
Mas porque sua função era diferente.
Uma entidade que vem para um atendimento específico está concentrada no
trabalho que traz naquela noite. Já a entidade chefe carrega uma atenção mais
ampla. Ela olha para a gira como um todo: para os médiuns, para a corrente,
para a assistência e para as pessoas que chegam buscando ajuda, para o
andamento do trabalho e também para o que precisa ser cuidado antes, durante e
depois dele.
E o cambono, de algum modo, precisa acompanhar isso.
Naquela primeira vez eu ainda não compreendia tudo.
Mas já dava para sentir que a dimensão era outra.
Quando aceitei ser cambono chefe do terreiro
Quando aquela noite terminou, veio então a pergunta.
O Caboclo Tupinambá me perguntou se eu queria assumir a função de cambono
chefe do terreiro. Ou seja: se eu passaria a auxiliá-lo de forma mais
direta, ajudando o médium dirigente da casa e também as entidades que
trabalhavam através dele.
Foi uma pergunta.
Mas, como já tinha acontecido outras vezes antes, não parecia exatamente uma
pergunta aberta.
Era daquelas situações em que a direção já vinha junto com as palavras.
Ele me explicou brevemente o que aquilo significava para mim.
E, dessa vez, também anunciou para toda a corrente o que aquela mudança
significava para a casa.
Talvez tenha sido ali que eu senti com mais clareza que estava entrando em
outro lugar.
Não apenas ao lado de uma entidade.
Mas dentro de uma nova posição no próprio terreiro de Umbanda.
Por que eu?
A verdade é que eu não me sentia pronto.
Eu estava havia poucos meses no terreiro.
Havia poucos meses na própria Umbanda.
Outras pessoas estavam ali havia muito mais tempo. Algumas tinham crescido
dentro daquela religião. Outras já traziam uma convivência antiga com a casa,
com a corrente ou com outros terreiros.
Eu, não.
Por isso, junto com a alegria pela confiança recebida, veio também uma
pergunta muito forte: por que eu?
O que eu estava fazendo ali para receber uma confiança daquele tamanho?
Eu não tinha essa confiança toda em mim mesmo.
Hoje, olhando para trás, me parece que alguns chamados chegam exatamente
assim. Não quando nos sentimos prontos, mas quando ainda estamos tentando
entender por que fomos colocados ali.
Talvez parte do amadurecimento comece justamente nesse desconforto.
O que mudou na prática
Na prática, aquela função mudou muita coisa.
As orientações dadas pela entidade chefe durante a gira — e também em tudo o
que cercava o trabalho da casa — muitas vezes passavam por mim.
Eu precisava comunicar pedidos, transmitir direções e tentar garantir, da
forma possível, que aquilo fosse levado a sério.
Ao mesmo tempo, eu passei a ser procurado por muitas pessoas.
Perguntavam como seria a noite, o que podia ou não podia, o que deveria ser
feito, ou traziam pedidos e dúvidas que antes não chegavam até mim.
E isso foi estranho no começo, porque muitas vezes eu também ainda não sabia o
que fazer com todas aquelas perguntas.
De repente, minha voz tinha ganhado outro peso dentro do terreiro.
Não porque eu tivesse me tornado alguém cheio de respostas.
Mas porque eu tinha sido colocado num lugar onde muita gente passou a esperar
alguma resposta de mim.
O que a responsabilidade espiritual de um cambono começou a significar para mim
Hoje, olhando para trás, vejo que aquele posto me aproximou de uma dimensão
mais concreta da responsabilidade espiritual.
Não apenas no sentido de cumprir uma função.
Mas no sentido de entender melhor o que a casa tentava sustentar.
A caridade.
O respeito pela casa e pelo próximo.
O cuidado com quem chegava buscando ajuda.
O amparo a quem vinha mais fragilizado.
E também a humildade de não confundir função com importância pessoal.
Eu já sabia, em teoria, que o trabalho na Umbanda exigia responsabilidade.
Mas foi naquele lugar que comecei a enxergar melhor a dimensão concreta disso.
O que começou ali
Minha rotina mudou.
Minha atenção mudou.
Meu olhar para a gira também mudou.
Passei a observar não apenas o que acontecia diante de mim, mas tudo o que
cercava o trabalho. O antes, o durante e o depois começaram a ganhar outro
peso.
Minha relação com a própria Umbanda também se estreitou.
O trabalho era cansativo muitas vezes. Exigia atenção. Exigia presença. Exigia
firmeza. Mas também era profundamente recompensador.
Minha relação com as entidades mudou.
O medo que eu tinha no começo foi desaparecendo com o tempo. Aos poucos, a
convivência mais próxima foi trazendo naturalidade, confiança e abertura para
um diálogo que antes me parecia distante demais.
E minha postura espiritual também amadureceu.
Hoje me parece difícil separar o médium que fui me tornando daquele lugar que
comecei a ocupar naquele dia.
Talvez por isso eu volte tanto a esse momento.
Porque, olhando para trás, vejo que não foi apenas uma mudança de função.
Foi o começo de um modo diferente de viver a minha caminhada espiritual.
O ciclo que eu só entendi depois
Naquele momento, eu ainda não tinha como medir o que estava começando.
Eu só sabia que um ciclo tinha se encerrado e outro estava se abrindo.
Só muito depois percebi que aquele novo lugar me ensinaria mais do que eu
poderia imaginar. Não apenas sobre o terreiro ou sobre as entidades, mas sobre
uma coisa mais simples e mais difícil: nem sempre a vida espera que a gente se
sinta pronto para confiar alguma coisa a nós.
Às vezes a confiança vem antes.
E é justamente isso que começa a nos transformar.
Foi assim, para mim, naquela noite.
O que parecia apenas uma mudança de função acabou se tornando o início de uma
forma mais profunda de viver a Umbanda, a responsabilidade e o cuidado com os
outros.
Entre mundos.
E talvez alguns dos passos mais importantes da caminhada comecem exatamente
quando ainda não sabemos bem como sustentá-los.