Quando o médium acha que é sobre ele

Quando o médium acha que é sobre ele

Depois de um atendimento, é comum que alguém se aproxime do médium para agradecer. O gesto é sincero, mas também pode revelar uma pergunta importante: a quem pertence o mérito do trabalho espiritual?

O agradecimento depois da gira

Vi essa cena acontecer muitas vezes.

Depois de uma gira, alguém se aproxima do médium e agradece.

Às vezes fala de uma orientação que fez sentido. Em outras, conta que saiu mais leve, que encontrou uma resposta ou que alguma coisa começou a mudar depois daquele atendimento.

O agradecimento é natural.

A pessoa viu a entidade se manifestar através daquele médium. Foi diante dele que se sentou. Foi através de sua voz que ouviu as palavras. Foi seu corpo que permaneceu ali durante toda a conversa.

O médium participou.

Mas participar não significa que o mérito pertença inteiramente a ele.

Talvez por isso tantos médiuns que conheci respondessem de maneira simples:

— Agradeça à entidade.

Essa resposta não diminuía o papel do médium. Apenas recolocava cada coisa em seu lugar.

O trabalho passa por alguém

Na Umbanda, o médium é um intermediário.

Isso não significa que seja passivo ou irrelevante. Existe preparo, disciplina, estudo e disponibilidade para servir. O modo como o médium cuida de si, se coloca diante da entidade e se entrega ao trabalho também influencia aquilo que consegue sustentar.

Ainda assim, a entidade não é uma personagem criada para ampliar a importância de quem a incorpora.

O trabalho passa pelo médium, mas não começa nem termina nele.

E mesmo a entidade não trabalha a partir de uma força isolada.

Na forma como aprendi a compreender a Umbanda, nada se manifesta sem a força dos Orixás e sem Deus, também chamado Olodumaré nas tradições ligadas aos Orixás. É dentro dessa ordem maior que o trabalho espiritual encontra força, direção e possibilidade de acontecer.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de lembrar ao longo do tempo.

Porque receber gratidão é bom.

Ser reconhecido é bom.

Perceber que alguém foi ajudado através de algo do qual participamos também pode trazer uma alegria legítima.

O risco aparece quando essa alegria começa a se transformar em posse.

Quando o médium deixa de pensar “participei desse trabalho” e começa, mesmo sem perceber, a pensar “fui eu quem fez isso”.

Quando as próprias entidades recusam o centro

Também vi muitas entidades reagirem dessa forma quando alguém lhes agradecia.

Cada uma respondia segundo sua maneira de falar, sua linha e seu modo próprio de conduzir o atendimento.

Algumas diziam:

— Agradeça à sua própria força.

Outras pediam que a pessoa agradecesse aos Orixás.

Outras dirigiam o agradecimento a Deus.

As palavras mudavam, mas havia algo comum entre elas: mesmo depois de orientar, acolher ou ajudar alguém, a entidade não se apresentava como a origem única daquilo que havia acontecido.

Ela reconhecia a força dos Orixás que sustentava o trabalho.

Reconhecia que, acima daquele encontro, estava Deus.

E, muitas vezes, também devolvia à pessoa atendida a consciência de sua própria participação.

Isso sempre me chamou atenção.

Se até a entidade reconhece que sua atuação depende de forças maiores e desloca o agradecimento para além de si, talvez exista aí uma lição importante para o médium.

A pessoa também participa da própria mudança

Quando alguém sai de um atendimento e transforma alguma coisa em sua vida, isso não acontece apenas porque ouviu boas palavras.

Ela precisou escutar.

Precisou reconhecer algo em si.

Precisou tomar uma decisão, mudar uma atitude ou atravessar uma dificuldade que continuaria existindo depois da gira.

A entidade pode orientar.

O médium pode oferecer passagem para essa orientação.

A corrente pode ajudar a sustentar o trabalho.

Os Orixás podem oferecer força, direção e equilíbrio dentro daquilo que está sendo realizado.

Mas ninguém vive a mudança no lugar da pessoa.

Talvez por isso algumas entidades respondam:

— Agradeça à sua própria força.

Não como uma negação do auxílio espiritual ou da força dos Orixás, mas como um lembrete de que o amparo recebido também precisa encontrar disposição para se transformar em escolha.

Humildade não é negar a própria responsabilidade

Existe também um cuidado no sentido contrário.

Reconhecer que o mérito não pertence ao médium não deveria servir para apagar sua responsabilidade.

O médium continua respondendo pela forma como se prepara, pela seriedade com que participa e pela postura que mantém antes, durante e depois da gira.

Ele não é a origem da força que se manifesta, mas também não é apenas um corpo sem vontade ou consciência.

Existe uma participação humana naquele encontro.

Existe responsabilidade naquilo que se diz, na maneira como se acolhe, no respeito aos limites da pessoa atendida e no cuidado para não misturar desejos pessoais com o trabalho da entidade.

Talvez a humildade espiritual esteja justamente aí.

Não em fingir que não participou, mas em reconhecer com clareza qual foi a sua parte — sem tomar para si o que pertence à entidade, aos Orixás, à corrente, à pessoa atendida e, em última instância, a Deus.

Também existe uma diferença importante entre receber um agradecimento com carinho e precisar dele para confirmar o próprio valor espiritual.

No primeiro caso, o agradecimento é acolhido.

No segundo, ele começa a alimentar uma imagem.

E o trabalho, pouco a pouco, corre o risco de deixar de ser sobre servir.

A quem pertence o mérito?

Talvez o mérito de um trabalho espiritual nunca pertença a uma única parte.

Existe a entidade que orienta.

Existe o médium que oferece passagem e precisa responder pela maneira como participa.

Existe a corrente que sustenta a gira.

Existe o terreiro que cria as condições para aquele encontro.

Existe a pessoa atendida, que precisará transformar orientação em escolha.

Existem os Orixás, cujas forças sustentam e organizam o trabalho dentro da tradição.

E existe Deus, Olodumaré, como origem maior da vida e de tudo aquilo que pode se manifestar através dela.

Com o tempo, percebi que responder “agradeça à entidade” não era apenas uma forma de cortesia.

Era também uma maneira de proteger o médium de uma confusão silenciosa.

A de imaginar que, por ter servido de caminho, tornou-se a origem daquilo que passou por ele.

Entre mundos.

E talvez servir também seja aprender a reconhecer a própria participação sem esquecer de onde vem a força que nos permite participar.