Exu não é o que te disseram

Exu não é o que te disseram

Antes de conhecer a Umbanda, eu já carregava imagens sobre Exu e Pomba-Gira. A convivência com essas entidades me ensinou sobre perguntas, escolhas e responsabilidade. Anos depois, já na Alemanha, comecei também a compreender Exu como Orixá.

Um nome que chegou antes da experiência

Antes mesmo de entrar em um terreiro, eu já conhecia os nomes Exu e Pomba-Gira.

Ou, pelo menos, acreditava que conhecia.

Nunca tinha conversado seriamente com alguém da Umbanda. Nunca tinha visto um atendimento. Ainda assim, já carregava imagens suficientes para formar uma opinião.

Quando participei da minha primeira gira e ouvi “Laroyê Exu”, senti aquele velho desconforto aparecer.

Eu não sabia exatamente o que aquela saudação significava. Mas sabia tudo o que outras pessoas já haviam associado àquele nome.

O medo não nasceu no terreiro.

Ele chegou comigo.

Eu ainda não sabia quem eram os Exus e as Pomba-Giras na Umbanda, mas já acreditava saber o que deveria sentir diante deles.

O preconceito havia chegado muito antes da experiência.

Os Exus e Pomba-Giras que encontrei na Umbanda

Meu primeiro contato com essa linha não aconteceu pelos livros.

Também não começou pelo estudo dos Orixás.

Começou pela convivência.

Na Umbanda, Exus e Pomba-Giras são entidades espirituais que trabalham através dos médiuns durante a gira. Foi convivendo com elas durante muitos anos que comecei a abandonar, pouco a pouco, as imagens que havia construído.

Na casa onde vivi boa parte da minha caminhada, participavam dos atendimentos, da proteção do terreiro e de diferentes trabalhos espirituais.

Mas o que mais me marcou foi a forma particular como se aproximavam da vida.

Como outras entidades da Umbanda, também buscavam orientar, cuidar e ajudar quem chegava ao terreiro. O contraste estava menos no propósito e mais na linguagem, nos temas e na maneira de conduzir cada conversa.

Com Exus e Pomba-Giras, muitas vezes havia menos espaço para rodeios.

Falava-se de trabalho.

De dinheiro.

De família.

De relacionamentos.

De orgulho.

De medo.

De desejos.

De escolhas.

A espiritualidade não parecia acontecer longe do mundo.

Ela acontecia justamente dentro dele.

Isso não significava valorizar apenas dinheiro, prazer ou conquistas materiais. Significava reconhecer que é neste mundo que construímos relações, tomamos decisões e tentamos viver a vida que dizemos desejar.

Não adiantava pedir equilíbrio espiritual e continuar alimentando os mesmos conflitos.

Não adiantava pedir novas oportunidades e permanecer parado diante das possibilidades.

Também não adiantava desejar relações diferentes sem olhar para aquilo que continuávamos aceitando — dos outros e de nós mesmos.

Talvez o crescimento espiritual não aconteça apesar da vida material.

Talvez aconteça exatamente através dela.

A linguagem também fazia parte do trabalho

Outra coisa me causava estranhamento.

A linguagem.

Alguns Exus eram extremamente diretos.

Outros usavam ironia ou sarcasmo.

Alguns recorriam a palavras que eu jamais imaginaria ouvir em um ambiente religioso.

No começo, confesso que aquilo me incomodava.

Eu vinha de uma ideia de espiritualidade mais cuidadosa nas palavras.

Mais polida.

Talvez também mais distante das contradições da vida cotidiana.

Demorei para entender que aquela linguagem fazia parte do próprio trabalho.

Ela parecia impedir que a conversa permanecesse na superfície.

Era difícil continuar escondido atrás de respostas educadas quando alguém desmontava, com poucas palavras, toda a narrativa que você havia preparado.

As perguntas nem sempre eram muito diferentes daquelas que qualquer pessoa poderia fazer.

O peso estava na maneira como eram feitas.

Na insistência.

No silêncio que vinha depois.

Na sensação de que a resposta ainda não tinha chegado ao lugar certo.

Exus e Pomba-Giras não pareciam procurar respostas bonitas.

Procuravam respostas verdadeiras.

Perguntas que voltavam para casa comigo

Durante muitos anos fui cambono.

Esse lugar me permitiu acompanhar muitos atendimentos de perto.

Não posso contar essas histórias. Elas pertencem às pessoas que confiaram suas vidas ao terreiro.

Os detalhes de muitas conversas também se perderam com o tempo. Depois de tantos anos, já não consigo separar uma noite da outra nem recordar exatamente quem disse cada frase.

O que permaneceu foi o movimento que se repetia.

Não consigo mais lembrar qual foi a primeira vez que ouvi uma pergunta assim.

Talvez porque ela tenha aparecido muitas vezes, em vozes e situações diferentes.

A pessoa chegava dizendo que nada dava certo.

Que a vida não mudava.

Que ninguém lhe dava uma oportunidade.

A entidade escutava.

Então perguntava:

— E o que você vai fazer para mudar essa situação?

A resposta vinha rapidamente.

Depois vinha o silêncio.

E, muitas vezes, a mesma pergunta voltava.

Não porque a entidade não tivesse ouvido.

Mas porque parecia perceber que aquela primeira resposta ainda era apenas uma justificativa.

Talvez fosse o medo respondendo.

Talvez o orgulho.

Talvez fosse uma história repetida há tanto tempo que já parecia verdade.

Aos poucos, fui entendendo que aquelas perguntas não buscavam apenas informação.

Elas retiravam a pessoa do lugar onde era possível esperar que algo acontecesse sem assumir parte naquele movimento.

Devolviam algo que, muitas vezes, havia sido perdido sem que ela percebesse:

a autoria sobre a própria vida.

O curioso é que essas perguntas não terminavam quando o atendimento acabava.

Muitas vezes eu voltava para casa carregando algumas delas comigo.

Eu era o cambono.

Mas era impossível acompanhar tantos encontros sem começar a ouvir aquelas perguntas dentro de mim também.

A verdade que não condena

Foi convivendo mais de perto com essa linha que uma diferença importante se tornou especialmente visível para mim.

Existe uma verdade que acusa.

E existe uma verdade que desperta.

Na minha experiência, a forma como Exus e Pomba-Giras conduziam essas conversas deixava claro que o objetivo não era apenas mostrar que alguém estava errado.

O que eu via era uma tentativa de chegar à raiz daquilo que mantinha a pessoa presa.

Muitas vezes o problema apresentado não era falso.

Mas também não era todo o problema.

Alguém podia chegar falando sobre a ausência de uma relação amorosa e, pouco a pouco, a conversa se aproximava da forma como essa pessoa se enxergava.

Outra pessoa podia falar sobre a falta de oportunidades, mas a pergunta retornava para aquilo que ela estava fazendo — ou deixando de fazer — diante das possibilidades que já existiam.

O assunto mudava.

A pergunta mudava.

E, aos poucos, mudava também a maneira como a pessoa olhava para a própria história.

No começo eu achava essas conversas duras.

Hoje vejo outra coisa.

Muitas vezes, o confronto parecia partir da certeza de que aquela pessoa era maior do que a imagem limitada que fazia de si mesma.

Talvez por isso a pergunta fosse repetida.

Não para vencer uma discussão.

Nem para humilhar alguém.

Mas porque a entidade parecia se recusar a aceitar que aquela pessoa desistisse de si mesma.

Escolhas, quedas e responsabilidade

Durante muito tempo me fiz uma pergunta.

Se uma entidade conseguia perceber determinadas consequências antes da pessoa, por que simplesmente não impedia que ela cometesse um erro?

Nunca recebi uma resposta direta.

Recebi anos de observação.

Fui percebendo que Exus e Pomba-Giras orientavam.

Alertavam.

Confrontavam.

Mostravam possibilidades.

Mas não escolhiam.

Depois de um atendimento, a vida continuava exatamente onde sempre esteve.

Quem precisava decidir ainda era quem havia procurado ajuda.

No começo isso me frustrava.

Hoje me parece um dos maiores gestos de respeito que encontrei.

Existe uma diferença enorme entre controlar alguém e ajudar essa pessoa a amadurecer.

Nem toda ajuda impede uma queda.

Às vezes ela apenas permite que a queda não seja desperdiçada.

Algumas experiências não podem ser vividas por outra pessoa. Algumas consequências precisam deixar de ser apenas um aviso para se transformarem em compreensão.

Isso não significa que o sofrimento seja necessário ou desejável.

Significa apenas que liberdade também inclui a possibilidade de escolher, errar e aprender.

A convivência com essa linha tornou especialmente claro para mim que espiritualidade não substitui responsabilidade.

Ela pode nos ajudar a reconhecer a participação que temos nas próprias escolhas.

Quando comecei a compreender Exu como Orixá

Durante muitos anos, quando alguém dizia “Exu”, meu pensamento ia naturalmente para os Exus e as Pomba-Giras da Umbanda.

Essa era a experiência que eu conhecia.

Foi apenas muito tempo depois, já vivendo na Alemanha, que o contato mais próximo com o Candomblé e o estudo dos Orixás ampliaram minha compreensão.

Não sou iniciado no Candomblé e não escrevo como alguém que possa ensinar essa tradição.

Mas aquele encontro ampliou meu horizonte.

Foi ali que comecei a compreender Exu como Orixá.

Não apenas como um nome que eu já havia ouvido, mas como uma das forças primordiais da criação.

Ao conhecer alguns mitos e refletir sobre eles, encontrei um Exu profundamente ligado ao movimento, à comunicação, às possibilidades, às escolhas e às consequências que nascem delas.

Exu não aparecia para mim como uma força simplesmente boa ou ruim.

Essas categorias pareciam pequenas demais para compreender uma presença ligada ao movimento da própria vida.

Os caminhos podiam se apresentar, mas ainda precisavam ser percorridos.

As possibilidades podiam surgir, mas alguém ainda precisava escolher.

Isso dialogava com algo que eu já havia observado durante anos na Umbanda.

Exus e Pomba-Giras podiam orientar, confrontar e mostrar possibilidades, mas não retiravam das pessoas a responsabilidade por aquilo que decidiam fazer depois.

Não vi nisso uma explicação para as entidades que conheci.

Vi uma ampliação.

Minha caminhada não mudou de direção.

Ela ganhou profundidade.

O que ficou dessa caminhada

Hoje penso que meu maior aprendizado sobre Exu nunca foi uma definição.

Foi uma maneira diferente de olhar para escolhas, liberdade e responsabilidade.

Algumas perguntas começaram a parecer mais importantes do que muitas respostas.

As mentiras mais difíceis de abandonar passaram a ser justamente aquelas que contamos a nós mesmos.

E as consequências já não pareciam necessariamente castigo.

Muitas vezes, eram apenas a forma como a vida transformava escolhas em aprendizado.

Os Exus e as Pomba-Giras que conheci nunca pareciam conversar apenas com a pessoa que estava diante deles.

Muitas vezes eu tinha a impressão de que conversavam também com a pessoa que ela ainda podia se tornar.

Talvez esse aprendizado não pertença apenas a uma linha espiritual.

Outras entidades também nos conduzem à verdade, à responsabilidade e ao amadurecimento, cada uma a partir de sua própria linguagem e de seus próprios caminhos.

Com Exus e Pomba-Giras, esse movimento muitas vezes apareceu de forma mais direta, mais próxima da vida material e menos disposta a aceitar respostas superficiais.

Entre mundos.

E talvez algumas perguntas não existam para nos dar uma resposta, mas para mudar o lugar de onde escolhemos responder.