A primeira vez que cambonei uma entidade na Umbanda
Aos poucos, comecei a perceber que tudo o que se pedia a alguém dentro do terreiro acabava se tornando aprendizado. Um dia, isso me levou a ocupar um lugar diferente dentro da gira: pela primeira vez, auxiliar uma entidade ao longo de uma noite de atendimentos.
Quando comecei a perceber que nada ali era só tarefa
Com o tempo, fui percebendo uma coisa que no início ainda não era tão clara para mim.
Dentro de um terreiro, tudo o que é pedido a alguém acaba se tornando aprendizado.
Às vezes eram pedidos que pareciam quase banais. Buscar uma folha em branco. Levar um copo d’água. Fazer alguma coisa simples sem chamar atenção.
E, ainda assim, algumas dessas pequenas solicitações ficavam na memória de um jeito desproporcional, como se nelas já houvesse alguma lição escondida.
Em outros momentos da minha caminhada no terreiro, vieram também pedidos de outro peso — inclusive recados firmes, desconfortáveis, que precisavam ser transmitidos da forma certa e na hora certa.
De formas muito diferentes, os dois tipos de experiência me marcaram.
Mas isso eu só entenderia melhor mais tarde. Naquele período, eu ainda estava começando a perceber que, dentro daquele ambiente, as tarefas nunca eram só tarefas.
Havia sempre alguma coisa sendo ensinada junto.
Hoje olho para isso com mais clareza. Na época, eu só sentia que o terreiro ia mostrando, aos poucos, que aprender ali não significava apenas ouvir explicações ou receber orientações espirituais.
Significava também estar disponível para servir quando alguma função aparecia.
Foi dentro desse movimento que, um dia, surgiu um convite diferente.
A noite em que meu lugar mudou dentro da gira de Umbanda
Naquele período eu ainda estava à frente da cromoterapia no terreiro.
Era uma função que já tinha mudado a forma como eu me via dentro da casa. Naquele período, eu já não estava apenas no lugar de quem observava, porque a cromoterapia também me colocava em uma posição de responsabilidade. Mas o trabalho que eu conhecia até ali ainda tinha outra forma, outro ritmo e outro tipo de proximidade com as entidades.
Mas naquela noite o foco mudou.
O dirigente espiritual da casa, o caboclo Tupinambá, decidiu que a cromoterapia ficaria fechada naquela gira. Em vez disso, eu deveria auxiliar uma das entidades que iria trabalhar naquele atendimento público.
Essa foi a primeira vez.
Depois, isso ainda aconteceria outras vezes. Em algumas noites, talvez por falta de gente na corrente mediúnica — o grupo de médiuns que trabalha espiritualmente durante a gira. Em outras, por um motivo que não me ficava claro.
Mas o que ficou mais marcado para mim naquela primeira vez não foi a razão exata da mudança.
Foi o fato de que, de repente, meu lugar já não era o mesmo.
Hoje penso que nem sempre era preciso entender o motivo.
Naquela noite, bastava ocupar o lugar que me foi dado.
E esse lugar era novo para mim.
O que faz um cambono na Umbanda
Na Umbanda, o cambono é a pessoa que auxilia o médium e suas entidades durante a gira. Essa função envolve atenção, acolhimento, organização do atendimento e discrição no trabalho espiritual.
Em algumas casas isso acontece de forma mais pontual. Em outras, a mesma pessoa acompanha aquele médium com mais frequência.
Com o tempo, ouvi muitas vezes uma expressão que ficou guardada na memória: a tríade médium, cambono e entidade.
Dizia-se que, quando essa tríade estava em sintonia, tudo acontecia com uma precisão silenciosa.
Não apenas nos movimentos visíveis ou nas necessidades materiais do atendimento, mas principalmente no próprio trabalho espiritual que acontecia ali.
Naquele primeiro convite, é claro, isso ainda não existia.
Eu conhecia o nome da entidade. Sabia diante de quem eu estaria. Mas ainda não conhecia seu jeito, seu ritmo, sua forma de conduzir o atendimento.
Talvez por isso aquela experiência tenha me marcado tanto.
Cambonar não era apenas ficar ao lado.
Exigia atenção, presença e uma certa discrição.
Era preciso ajudar sem invadir, perceber sem interromper e acompanhar o ritmo do atendimento sem tentar conduzi-lo.
Na época eu ainda não saberia colocar isso em palavras.
Mas já sentia que boa parte daquele trabalho dependia justamente dessa medida.
O primeiro ensinamento de Joana de Aruanda
Naquela noite, a entidade a qual eu cambonei foi a Preta Velha Joana de Aruanda.
Antes de qualquer outra coisa, ela me deu um passe.
Depois pediu que eu acendesse a vela com a qual iria trabalhar naquela noite.
Só então começou a me explicar o que precisava de mim.
Tudo parecia simples.
Receber bem as pessoas que chegariam até ela. Ajudar a organizar a aproximação de cada uma. Estar atento ao que fosse necessário durante o atendimento. Em alguns momentos, ajudar no entendimento do que estava sendo dito. Em outros, colaborar também em pequenos gestos do trabalho espiritual, inclusive na imantação quando fosse necessário.
Mas uma coisa que ela me disse ficou especialmente guardada.
O trabalho já começava antes, desde o momento em que a pessoa decidia ir ao terreiro.
O contato com o cambono, porém, era muitas vezes o primeiro instante em que aquilo tudo começava a ganhar forma concreta.
Essa ideia ficou comigo.
Até então, eu talvez pensasse no atendimento como algo que começava quando a pessoa finalmente se sentava diante da entidade.
Naquela noite, comecei a perceber que não.
O modo como alguém é recebido também faz parte da ajuda.
E, ao mesmo tempo, fui entendendo melhor como aquele encontro acontecia.
Muitas pessoas chegavam nervosas. Outras vinham chorando. Algumas pareciam não saber por onde começar.
E muitas vezes, antes de qualquer palavra mais direta, vinha o abraço da entidade.
Na minha experiência, era ali que alguma coisa começava a mudar.
Antes mesmo do conselho, antes de qualquer orientação mais clara, aquele gesto já abria um espaço de confiança, de acolhimento e de entrega.
Escutar sem ser o destinatário
Durante os atendimentos, fiz o que me foi pedido.
Recebia as pessoas, ajudava quando necessário, permanecia atento ao trabalho e tentava não atrapalhar o fluxo daquele encontro que, para mim, ainda era novo.
Mas havia algo mais acontecendo.
Muitas palavras ditas naquela noite, embora dirigidas a outras pessoas, também me alcançavam.
Isso me lembrava algo que também aparecia em outros momentos da minha experiência no terreiro: às vezes, uma entidade diz algo em aberto e aquilo acaba tocando mais gente do que apenas o consulente.
Mas ali era um pouco diferente.
Como cambono, eu estava ao lado.
Presente o tempo todo.
Escutando tudo, mas tentando manter a mente quase desligada, porque aquilo, a princípio, não era para mim.
E ainda assim, entre uma frase e outra, surgia uma espécie de chamado de atenção.
Como se certas palavras atravessassem o atendimento e me encontrassem também.
Não de forma invasiva. Nem como se tudo fosse sobre mim.
Mas como um lembrete silencioso de que, mesmo quando estamos ajudando no trabalho de uma entidade, continuamos sendo trabalhados também.
Um atendimento de cada vez
Outra coisa que me marcou naquela noite foi perceber como um atendimento não se confundia com o outro.
Eu me impressionava com algumas histórias.
Às vezes me sensibilizava com o que escutava.
Em certos momentos, saía de um atendimento ainda tocado pelo que tinha acabado de presenciar.
Mas, quando a próxima pessoa se aproximava, aquilo já não ocupava mais o mesmo espaço dentro de mim.
Não por indiferença.
Nem porque o que tinha sido ouvido era menos importante.
Talvez justamente pelo contrário.
Era como se fosse necessário deixar cada atendimento terminar por inteiro, para que o próximo pudesse receber a mesma presença, a mesma escuta e a mesma atenção.
Na época, não pensei nisso com essas palavras.
Hoje me parece que havia nisso uma lição importante.
Ajudar alguém, naquele contexto, também exigia aprender a não levar cada atendimento inteiro para o seguinte — e nem carregar tudo para dentro de mim da mesma forma.
Talvez houvesse aí uma medida difícil, mas necessária: estar realmente presente no que se escutava, sem deixar que aquilo tomasse todo o espaço depois.
A profundidade escondida no que parecia simples
Olhando para trás, o que mais me chama atenção naquela experiência é que quase tudo parecia simples.
Os gestos.
As orientações.
O modo de receber as pessoas.
A forma como eu deveria estar presente.
E, no entanto, nada ali era vazio.
Havia intenção em detalhes que, vistos de fora, talvez passassem despercebidos.
Com o tempo percebi que o atendimento espiritual é um momento muito íntimo, mas também muito humano.
Ali se encontram a entidade, o médium e o cambono diante de uma pessoa que chegou precisando de ajuda.
E muitas vezes a ajuda não aparece da forma grandiosa que imaginamos quando pensamos em espiritualidade.
Às vezes ela aparece como atenção.
Como escuta.
Como conselho.
Como a sensação de ter sido realmente recebido.
Hoje, vivendo fora do Brasil, isso também me chama atenção de outro jeito.
Talvez porque, quando a gente se distancia da cultura brasileira, certas coisas que antes pareciam naturais passam a ficar mais visíveis.
Esse acolhimento mais direto.
A possibilidade de falar da dor sem tanta formalidade.
De chorar.
De se atrapalhar nas palavras.
De colocar alguma coisa para fora mesmo sem conseguir organizar tudo direito.
Na minha experiência, isso é algo que toca profundamente muitas pessoas que não cresceram dentro desse universo cultural — e às vezes nem dentro da própria Umbanda.
Porque, para quem vem de contextos em que a estrutura, a contenção e o autocontrole têm muito peso, encontrar um espaço onde o sofrimento pode aparecer de forma humana, sem julgamento imediato, pode ser algo muito marcante.
Talvez exista uma espécie de magia silenciosa nisso tudo.
Uma magia simples, mas nem por isso pequena.
Um novo lugar dentro da gira
Aquela não foi a época em que mais trabalhei como cambono.
Outras experiências viriam depois, inclusive mais intensas, mais exigentes e mais formadoras.
Mas essa primeira vez ficou marcada de um jeito próprio.
Porque ali algo começou a mudar.
Naquela noite, eu estava ocupando um lugar diferente dentro da gira.
Ainda de forma inicial. Ainda sem grande intimidade naquele lugar. Ainda aprendendo.
Mas já em outro ponto do trabalho.
Talvez tenha sido uma mudança pequena por fora.
Por dentro, não foi.
Entre mundos.
E talvez, às vezes, seja assim que um novo lugar começa.