O que acontece durante uma gira de Umbanda?

O que acontece durante uma gira de Umbanda?

À primeira vista, uma gira de Umbanda parece começar com os atabaques e terminar com os atendimentos. Com o tempo, porém, fui entendendo que ela começa antes, continua depois e envolve mais do que se percebe no terreiro.

O que muita gente vê primeiro em uma gira de Umbanda

Quando alguém pensa em uma gira de Umbanda, quase sempre pensa primeiro
no que encontra ao chegar a um terreiro de Umbanda.

Os atabaques.
Os pontos cantados.
As entidades se manifestando pela incorporação.
Os atendimentos.
O movimento do terreiro já tomado por outra atmosfera.

Tudo isso é real.

É também, talvez, o que mais marca quem chega pela primeira vez.

Mas, com o tempo, isso foi me parecendo apenas a parte mais imediata da gira.

Não porque seja pequena.

Mas porque a gira foi deixando de me parecer um acontecimento que começa ali,
de repente, no instante em que alguma coisa se torna mais clara para quem está
presente.

A gira de Umbanda começa antes

Uma das coisas que fui aprendendo com o tempo é que o cuidado espiritual não
depende da gira para existir.

Na minha experiência, nós já somos acompanhados e ajudados continuamente,
mesmo quando não percebemos isso com clareza. Às vezes essa ajuda se torna
mais nítida. Às vezes parece distante. E, muitas vezes, ela simplesmente segue
acontecendo sem chamar atenção.

A gira, para mim, não cria esse acompanhamento do nada.

O que ela faz é outra coisa.

Quando alguém decide ir ao terreiro, buscar ajuda, sentar na assistência ou se
colocar dentro daquele campo de trabalho, parece que aquilo que já acompanhava
essa pessoa começa a entrar em alinhamento mais direto com o trabalho que será
feito na casa.

Esse entendimento não veio de uma vez só.

Ele foi se formando pela observação, pelos ensinamentos recebidos na casa e
também pelo que as próprias entidades foram mostrando, às vezes de forma muito
direta, às vezes de modo bem mais sutil.

Com o tempo, fui entendendo que as energias que serão trabalhadas e as
entidades que vão trabalhar na gira parecem começar a se aproximar da pessoa
antes mesmo do início da sessão. Como se a própria ida ao terreiro já fosse
parte do preparo. Para mim, o trabalho não começa apenas quando tudo se torna
mais perceptível dentro da casa, mas também nesse movimento anterior de
aproximação.

Não digo isso como fórmula.

Digo como algo que fui aprendendo a reconhecer.

Talvez por isso eu tenha deixado de pensar na gira apenas como uma sessão
espiritual com hora marcada para começar. Para mim, ela foi se tornando o
momento em que esse preparo se concentra e ganha outra intensidade.

O que acontece espiritualmente durante uma gira de Umbanda

Outra coisa que fui aprendendo é que a gira não me parece mover apenas uma
coisa de cada vez.

Ela me parece reunir muitas presenças, muitos movimentos e muitas formas de
atuação espiritual ao mesmo tempo.

Nem tudo acontece com a mesma força.
Nem tudo é percebido da mesma maneira.
Às vezes alguma coisa se faz sentir apenas para uma pessoa.
Às vezes a casa inteira parece entrar na mesma sintonia.

Há momentos em que certo trabalho se intensifica mais num ponto, depois em
outro. Há movimentos mais concentrados, outros mais discretos. Há presenças
que se anunciam de modo muito marcado, e outras que parecem agir quase sem se
deixar notar.

Foi só depois de conviver mais com a casa, observar melhor e ouvir certos
ensinamentos que comecei a encontrar palavras para isso.

Talvez uma delas seja esta: durante a gira, muitos fluxos energéticos
entram em sintonia com o trabalho daquela noite.

Não me parece um único fluxo.

Parece mais um campo vivo, em que diferentes movimentações espirituais se
aproximam, se alinham, se intensificam e, de algum modo, são conduzidas em
direção ao trabalho que precisa ser feito.

Por isso, para mim, a gira sempre foi mais do que uma sequência de
atendimentos.

Ela me parece um ápice.

Um momento em que muito do que vinha sendo preparado se condensa.

E essa condensação não me parece voltada apenas para um fenômeno espiritual em
si, mas para alguma forma de equilíbrio. Às vezes de alívio. Às vezes de
reorganização. Às vezes apenas de força para seguir em frente.

Nem sempre isso acontece de forma marcante para todos.

Muitas vezes acontece de modo muito mais sutil.

O que ajuda a conduzir o trabalho espiritual na gira

Talvez seja por isso que, com o tempo, eu tenha começado a olhar de outra
forma para tudo o que existe dentro da gira.

Os atabaques não me parecem estar ali apenas como som.
Os pontos cantados não me parecem estar ali apenas como canto.
As velas, os pontos riscados, o passe, os fumos utilizados por
algumas entidades e tantos outros elementos também não me parecem apenas
partes externas de uma tradição.

Na minha vivência, tudo isso participa da condução desses movimentos.

Cada coisa, à sua maneira, ajuda a mover, concentrar, firmar, proteger ou
direcionar o trabalho espiritual que está acontecendo ali.

Eu evitaria reduzir isso a uma mecânica rígida.

Porque, quando tudo vira fórmula, alguma coisa importante se perde.

Mas também me parece difícil olhar para esses elementos como se fossem apenas
símbolos bonitos ou costumes repetidos.

Para mim, eles fazem parte real do trabalho.

E o mesmo vale para as pessoas.

Esse foi outro aprendizado que não veio só de impressão pessoal, mas também da
convivência com a casa e dos ensinamentos recebidos ali. A corrente
mediúnica
 não está apenas ocupando um lugar. As entidades não trabalham
sozinhas. Os médiuns, cada um à sua maneira, ajudam a sustentar e direcionar
esse campo. Às vezes isso aparece de forma muito clara. Às vezes quase não
aparece. Mas nem por isso deixa de estar acontecendo.

Talvez por isso a gira tenha me parecido, cada vez mais, menos um momento em
que algumas entidades atendem pessoas e mais um momento em que muita coisa se
organiza ao mesmo tempo para que esse trabalho espiritual possa acontecer.

Proteção e resguardo antes e depois da gira

Outra coisa que fui entendendo com o tempo é que esse campo também precisa ser
protegido.

E, para mim, essa proteção tem pelo menos dois sentidos.

O primeiro é evitar que alguma interferência atrapalhe o trabalho.

O segundo é evitar dispersão.

Como se tudo aquilo que está sendo reunido, conduzido e sustentado durante a
gira precisasse permanecer firme até que o trabalho pudesse realmente se
cumprir.

Também aqui, muito do que fui entendendo não veio apenas de uma sensação
pessoal. Veio do que fui aprendendo na casa, do que ouvi das entidades e do
que fui observando ao longo do tempo.

Por isso, na minha forma de perceber, a proteção da gira não depende apenas
das entidades que se manifestam naquele momento.

Ela também passa por outras presenças espirituais.

Entre elas, a atuação de Exu — muitas vezes sem manifestação pela
incorporação naquele instante — me parece muito importante nessa guarda. E a
própria corrente mediúnica também participa disso. Não só porque trabalha, mas
porque ajuda a manter esse campo firme, resguardado e sustentado.

Talvez seja por isso que tantas casas falem da importância de se resguardar
antes e depois dos trabalhos espirituais.

Se a gira não começa exatamente no instante em que ela se torna mais
perceptível para quem está ali, então talvez também não faça sentido imaginar
que tudo se rompe no segundo em que ela termina.

Na minha experiência, não se rompe.

Algumas interações continuam.
Alguns efeitos continuam.
Alguns trabalhos parecem terminar só mais tarde.

Isso vale para quem foi buscar ajuda.
Vale para quem trabalhou na corrente.
Vale, de formas diferentes, para todos que entraram naquele campo.

Nem toda gira de Umbanda acontece da mesma forma

Ao mesmo tempo, acho importante dizer isso com cuidado.

Nem toda gira é igual.
Nem toda casa faz da mesma forma.
Nem toda casa entende tudo isso do mesmo jeito.

Há diferenças de ritmo, de condução, de organização e até de linguagem.

Por isso, o que tento nomear aqui não é uma definição final da gira.

É mais uma forma de dizer como ela foi deixando de fazer sentido para mim.

No começo, eu prestava mais atenção ao que acontecia diante dos olhos.

Com o tempo, fui aprendendo a perceber também o que parecia acontecer entre as
coisas, ao redor delas, antes delas e depois delas.

E talvez tenha sido isso que mais mudou minha forma de estar numa gira.

Em resumo: o que acontece durante uma gira de Umbanda

Se eu tivesse que responder hoje, de forma simples, o que acontece durante uma
gira de Umbanda, eu talvez dissesse isto:

Durante a gira, muita coisa se torna mais perceptível.

Mas o trabalho não começa ali.
E nem termina ali.

Na minha experiência, a gira é um momento em que muitos fluxos espirituais
entram em sintonia, se intensificam e são conduzidos em direção a algum tipo
de equilíbrio, amparo ou fortalecimento.

Às vezes isso é sentido de forma muito clara.
Às vezes quase não é.
Mas nem por isso deixa de estar acontecendo.

E esse entendimento, para mim, não nasceu apenas de uma percepção isolada. Ele
foi sendo construído na convivência com a casa, nos ensinamentos recebidos e
na observação do que se repetia, do que se confirmava e do que, aos poucos,
começava a fazer sentido.

Talvez por isso a gira nunca tenha me parecido apenas uma sessão.

Ela me pareceu, cada vez mais, um ponto de encontro entre o que já vinha sendo
movido antes, o que se concentra naquele momento e o que ainda continua
depois.

Entre mundos.

E talvez seja justamente por isso que uma gira comece antes e termine depois
do que normalmente se percebe.