Quando assumi a mesa de Kardec em um terreiro de Umbanda
Quando assumi a mesa de Kardec em um terreiro de Umbanda, encontrei um trabalho mais silencioso, feito de orações, leituras e passes. Foi ali que comecei a entender que a responsabilidade espiritual também existe quando quase nada parece acontecer.
Um chamado em meio à gira de Umbanda
O pedido veio em meio a uma gira de Umbanda.
Ou talvez seja mais correto dizer que veio junto com um anúncio.
Em algum momento daquela noite, o Caboclo Tupinambá comunicou que eu passaria a assumir a mesa de Kardec da casa. Como já tinha acontecido outras vezes, aquilo não parecia exatamente uma pergunta.
Havia uma direção nas palavras.
Não era uma ordem dura. Mas também não parecia haver muito espaço para dizer não.
Minha primeira reação foi parecida com a de outros momentos da minha caminhada no terreiro: eu não me sentia preparado.
Naquela época, eu já tinha passado pela cromoterapia. Já tinha começado a cambonar a entidade chefe da casa. Já tinha entendido, ao menos um pouco, que algumas funções espirituais não esperam a gente se sentir pronto.
Mesmo assim, aquele chamado trazia algo diferente.
Eu não estava sendo colocado apenas para ajudar em uma parte da gira.
Eu estava sendo colocado diante de um trabalho inteiro.
E talvez o mais curioso seja que, visto de fora, esse trabalho parecia mais simples.
Mais curto.
Menos intenso.
Mas foi justamente ali que comecei a perceber algo que demorou a ganhar forma dentro de mim: nem todo trabalho espiritual mostra sua profundidade pela força com que aparece.
O que era a mesa de Kardec naquele terreiro
Naquela casa, chamávamos esse trabalho de formas diferentes.
Às vezes dizíamos mesa de Kardec.
Às vezes mesa kardecista.
Muitas vezes, simplesmente, o trabalho de Kardec.
Era um trabalho inspirado no espiritismo kardecista dentro de uma casa de Umbanda. A casa não era kardecista. Era um terreiro de Umbanda que também sustentava, dentro da sua própria forma, um espaço de oração, estudo, passe e reflexão inspirado no Kardecismo.
O trabalho acontecia quinzenalmente.
Começava no mesmo horário em que normalmente começaria uma gira, mas tinha outro ritmo.
Havia uma mesa, alguns médiuns sentados nela e um círculo de cadeiras ao redor. As pessoas podiam participar livremente. Era um trabalho público, aberto a quem quisesse estar ali.
Muita gente ia por vontade própria, buscando um momento de oração, estudo, reflexão ou apenas uma forma mais silenciosa de se aproximar da espiritualidade da casa.
Em alguns casos, como exceção, alguém também podia ser orientado por uma entidade a participar daquele trabalho por um motivo específico. Às vezes o próprio Caboclo Tupinambá indicava alguém.
Mas essa não era a regra.
De modo geral, as pessoas vinham porque queriam estar ali.
O trabalho começava com orações.
Depois vinha o passe, feito pelas pessoas sentadas à mesa em todos que estavam ao redor. Para quem não conhece o termo, o passe é uma forma de cuidado espiritual feita geralmente com as mãos, próximo ao corpo da pessoa, com concentração, oração e intenção de harmonização.
Depois vinham as leituras.
Trechos de livros ligados ao Kardecismo eram lidos e, a partir deles, surgiam pequenas colocações. Às vezes uma reflexão. Às vezes uma frase curta. Às vezes apenas o silêncio que ficava depois da leitura.
Ao final, havia espaço para manifestações espirituais ou para que alguém compartilhasse algo que tivesse sentido durante o trabalho.
Mas esse não era o centro.
A mesa tinha espaço para manifestações, sim. Se algum espírito ou entidade precisava trazer uma mensagem, havia abertura para isso. Mas o foco principal era outro.
Era o estudo.
A oração.
A escuta.
A sustentação daquele espaço.
Na gira, muita coisa se apresentava de forma mais visível. Havia incorporação, atendimento, movimento, canto e orientação direta das entidades.
A gira de Umbanda se apresentava de forma mais visível, com incorporação, canto, movimento e orientação direta das entidades. A mesa de Kardec, por outro lado, acontecia em um ritmo mais silencioso, centrado na oração, no estudo, no passe e na escuta.
E, no começo, talvez justamente por isso, fosse mais difícil reconhecer sua presença.
Quando o silêncio também toca
Comparado a uma gira de Umbanda, aquele trabalho parecia mais leve.
A gira tinha outro peso.
Nela, as pessoas chegavam diante das entidades trazendo perguntas, dores, pedidos, conflitos familiares, dúvidas espirituais, questões materiais e emocionais. Havia uma intensidade que se via no corpo, na voz, no choro ou no silêncio de quem sentava diante de um guia.
A mesa de Kardec tinha outro clima.
Era mais calma.
Mais voltada ao estudo.
No começo, talvez eu tenha confundido isso com algo mais fácil de sustentar.
Mas, com o tempo, fui percebendo que um trabalho espiritual não se mede apenas pelo volume externo.
Às vezes, um trecho lido em voz tranquila encontrava alguém de um jeito inesperado.
Muitas leituras pareciam escolhidas quase ao acaso. Um livro era aberto, uma passagem era lida, e de alguma forma aquilo tocava o contexto de alguém que estava ali.
Às vezes era uma pessoa que tinha ido por vontade própria, sem dizer muito sobre o que estava vivendo.
Às vezes era alguém da própria corrente.
Às vezes parecia ser um tema que atravessava o grupo inteiro naquela noite.
Hoje eu não guardo uma leitura específica como exemplo.
O que ficou foi a repetição dessa impressão: textos simples, às vezes quase casuais, acabavam tocando temas muito concretos de quem participava.
Aquilo me impressionava.
E também me deixava inseguro.
Porque havia ali uma forma de orientação que não vinha no formato que eu estava acostumado a reconhecer.
Não era uma entidade incorporada chamando alguém.
Não era um guia dando uma direção clara.
Era uma leitura.
Uma associação.
Uma sensação.
E, ainda assim, muitas vezes aquilo parecia chegar onde precisava chegar.
Talvez esse tenha sido um dos primeiros aprendizados daquele trabalho: a espiritualidade nem sempre precisa se apresentar de forma evidente para agir sobre alguém.
Às vezes ela se aproxima em silêncio.
E o silêncio, quando encontra uma pessoa no momento certo, também pode ser profundo.
Foi nesse silêncio que outra insegurança começou a aparecer.
E se alguma manifestação acontecesse através de mim?
Na Umbanda, eu já tinha visto muitas manifestações espirituais. Já tinha visto entidades chegarem, trabalharem, orientarem e cuidarem. Já tinha convivido com isso de perto.
Mas uma coisa é observar.
Outra coisa é perceber que algo pode passar por você.
Na mesa, às vezes eu sentia uma frase.
Uma impressão.
Uma mensagem possível.
Algo que parecia querer ser dito.
Mas logo vinha a dúvida:
Será que isso é mesmo alguma coisa?
Ou é só pensamento meu?
Muitas vezes eu não falava.
Guardava.
Deixava passar.
Talvez por prudência.
Talvez por medo.
Talvez por não saber diferenciar intuição de imaginação.
Hoje, olhando de longe para aquele tempo, percebo que muitos recados chegam justamente assim.
Não como uma voz clara vindo de fora.
Mas como uma intuição.
Como uma conversa interna.
Como se estivéssemos falando conosco mesmos.
Talvez, se eu soubesse disso naquela época, teria sido mais fácil confiar um pouco mais.
Mas talvez isso também fizesse parte do aprendizado.
Eu ainda esperava que o espiritual se separasse claramente de mim.
Como se uma mensagem verdadeira precisasse chegar com uma marca evidente, impossível de confundir.
Com o tempo, fui percebendo que nem sempre é assim.
Muitas vezes, aquilo que chamamos de intuição aparece misturado à nossa própria voz interior. E talvez uma parte importante do desenvolvimento espiritual seja justamente aprender a escutar essa voz sem pressa, sem vaidade e sem transformar qualquer pensamento em orientação.
Porque existe responsabilidade tanto em falar quanto em calar.
Falar sem cuidado pode confundir.
Mas calar sempre, por medo, também pode impedir que algo simples seja compartilhado no momento certo.
Na época, eu ainda não sabia lidar bem com isso.
Talvez por isso a mesa tenha sido um aprendizado tão importante.
Ela me ensinava, aos poucos, que a espiritualidade também pode aparecer em formas discretas.
Quase pedindo licença.
E que escutar também é uma forma de responsabilidade.
Onde alguém é tocado, há responsabilidade
A mesa de Kardec foi a primeira vez em que me vi diante de um trabalho inteiro.
Mesmo sendo mais curta que uma gira, ela tinha começo, meio e fim.
Era preciso abrir, sustentar o ritmo, perceber o grupo, acompanhar as leituras, organizar o passe, dar espaço para colocações e fechar.
Isso me deu uma perspectiva diferente.
Durante as giras, como cambono, eu já tinha começado a observar o todo ao lado da entidade chefe. Eu via como o Caboclo Tupinambá olhava para a corrente, para os médiuns, para o andamento da gira e para aquilo que precisava ser cuidado antes, durante e depois.
Na mesa de Kardec, em uma dimensão menor e mais silenciosa, comecei a sentir um pouco disso.
Não se tratava de controlar tudo.
Talvez fosse justamente o contrário.
Tratava-se de sustentar um espaço onde algo podia acontecer sem depender da minha vontade, da minha certeza ou da minha compreensão completa.
E talvez esse tenha sido o maior aprendizado daquele período.
Um trabalho espiritual não precisa parecer grandioso para exigir responsabilidade.
A gira parecia maior.
Mais movimentada.
Mais intensa.
A mesa parecia mais leve.
Mais curta.
Mais silenciosa.
Mas pessoas também eram tocadas ali.
E, se pessoas são tocadas, existe responsabilidade.
Responsabilidade com o que se fala.
Com o que se cala.
Com o modo como se conduz.
Com a forma como se aplica um passe.
Com a escuta de uma intuição.
Com o cuidado de não confundir insegurança com humildade, nem impulso com orientação.
Hoje, olhando para trás, penso que o Caboclo Tupinambá talvez não estivesse apenas me dando mais uma função.
Talvez estivesse me ensinando a reconhecer a espiritualidade quando ela não se apresenta de forma tão visível.
Quando ela não vem no brado.
Nem na incorporação.
Nem no movimento intenso da gira.
Mas em uma mesa.
Em uma oração.
Em um livro aberto.
Em algumas pessoas sentadas em círculo.
Em um passe feito com cuidado.
Em uma mensagem que quase não temos coragem de dizer.
A mesa de Kardec me ensinou que nem tudo que conduz precisa aparecer.
E talvez alguns trabalhos sejam silenciosos justamente para nos ensinar outro tipo de escuta.
Entre mundos.
E talvez seja nesse silêncio que algumas responsabilidades começam a tomar forma.