O que aprendi sobre os Orixás aos poucos

O que aprendi sobre os Orixás aos poucos

O que são Orixás? No começo, eu quase não sabia responder. Eles apareciam nos pontos, nos toques e na atmosfera da gira. Só com o tempo fui entendendo essas forças da criação, da natureza e da vida.

Antes de entender os Orixás, eu escutava

Durante muito tempo, os Orixás chegaram até mim antes das explicações.

Eu os ouvia nos pontos cantados.

Via seus nomes aparecerem nas rezas, nas conversas e nas orientações da casa.

Em alguns momentos da gira de Umbanda, o Caboclo Tupinambá, a entidade que conduzia o terreiro, pedia:

“toque para Ogum.”

“toque para Oxum.”

“toque para Oxalá.”

E assim seguia.

Na época, eu não entendia o motivo.

Percebia apenas que aquilo tinha importância. Não era só uma mudança de canto ou de ritmo. Algo mudava no ambiente.

No terreiro que eu frequentava também havia espaços dedicados a alguns Orixás. Eu via as pessoas se aproximarem desses espaços com respeito, ouvindo orientações, fazendo pedidos e entregas.

Mas quase tudo isso me escapava.

Eu ainda não entendia por que certos pedidos eram direcionados a um Orixá e não a outro. Também não compreendia por que, em alguns momentos, a gira parecia chamar uma força específica.

Mesmo assim, algo em mim respondia.

Alguns pontos cantados me tocavam mais do que outros.

Certos nomes despertavam uma afinidade que eu não sabia explicar.

Talvez esse tenha sido o primeiro jeito como os Orixás se aproximaram de mim: não como uma teoria, mas como uma presença.

Por muito tempo, aprender sobre os Orixás foi tentar responder a uma pergunta silenciosa:

que forças são essas que parecem atravessar tudo?

Um mapa para não me perder entre os Orixás

Quando a gente não entende, tenta organizar.

Foi isso que eu fiz.

Comecei a criar uma espécie de mapa interno dos Orixás.

Ogum: caminhos, ferro, força.

Oxum: rios, águas doces, fertilidade e amor.

Oxalá: branco, paz, criação.

Xangô: pedra, trovão, justiça.

Iemanjá: mar, maternidade.

Oxóssi: mata, caça, conhecimento.

Iansã: vento, movimento, transformação.

Omolu: doença, saúde, recolhimento.

Essas associações me ajudavam.

Quando entramos em uma tradição espiritual com nomes, símbolos, cantos e histórias, é natural procurar pontos de apoio. Uma primeira organização ajuda a reconhecer um nome, lembrar uma cor ou associar um Orixá a uma força da natureza.

Mas, com o tempo, comecei a perceber que saber associar um Orixá a alguns atributos não significava compreendê-lo.

Era apenas um começo.

Nomear uma força não é o mesmo que conhecê-la.

A tabela ajuda a entrar, mas aquilo para onde ela aponta é sempre maior.

O que são Orixás na Umbanda?

A pergunta que mais demorou a amadurecer em mim foi simples:

o que são Orixás?

No começo, eu já conhecia alguns nomes, cores e associações com elementos da natureza.

Mas ainda não sabia onde os Orixás entravam na Umbanda dentro da minha compreensão espiritual.

Os Orixás não eram entidades da Umbanda no sentido em que eu começava a conhecer as entidades: espíritos que se aproximam, conversam e trabalham através dos médiuns.

Também não eram “deuses” no sentido distante que eu conhecia de outras tradições.

Aos poucos, fui entendendo de outra forma.

Na Umbanda, quando falamos de Orixás, estamos falando de forças ligadas à criação, à natureza e à própria vida.

Os Orixás representam princípios espirituais que se manifestam na natureza e ajudam a sustentar diferentes aspectos da existência.

Eles falam do modo como o mundo se organiza, se movimenta e se sustenta.

Passei a compreendê-los como forças primordiais da criação, expressões do divino que tornam certas dimensões da existência mais próximas da nossa percepção.

Eles se revelam nos rios, nas matas, nas pedras, nos ventos, nas águas, no fogo e na terra.

Também se expressam em aspectos da experiência humana, como movimento, cura, justiça, maternidade, fertilidade, transformação, conhecimento e paz.

Por isso, para mim, foi importante entender uma coisa antes de qualquer outra:

os Orixás falam primeiro da própria vida.

Antes de tentar explicar detalhes ou classificações, eu precisei aprender a olhar para aquilo que eles expressam na criação.

Talvez por isso a natureza tenha me ajudado tanto.

Quando comecei a olhar para a água, para o vento, para a mata e para a pedra, algo se aproximou.

Não porque a natureza explicasse tudo, mas porque dava corpo a algo que as palavras sozinhas não conseguiam carregar.

Os muitos Orixás e as forças da natureza

Muito tempo depois, essa compreensão ganhou outra camada.

No começo, eu achava que conhecia os Orixás.

Ou, pelo menos, os mais conhecidos.

Ogum.

Oxum.

Oxóssi.

Xangô.

Iemanjá.

Iansã.

Oxalá.

Mas, conforme fui estudando e convivendo com pessoas de diferentes tradições, percebi que meu mapa era muito menor do que eu imaginava.

Novos nomes começaram a aparecer.

Nanã.

Obá.

Euá.

Logum Edé.

Ossaim.

Oxumarê.

Obaluaê.

Ibeji.

E muitos outros.

Cada nome parecia abrir uma nova paisagem.

Foi também nesse período que encontrei nomes que nem sempre aparecem nas listas mais conhecidas dos Orixás.

Iku, associado à morte.

Onilé, ligada à própria terra.

Essas presenças ampliaram minha compreensão.

A criação não falava apenas dos rios, das matas, dos ventos e dos mares.

Falava também da morte e da terra sob nossos pés.

Quando comecei a encontrar essas histórias, percebi algo importante:

o universo dos Orixás era muito maior do que qualquer lista resumida.

Maior do que os Orixás mais conhecidos.

Maior do que qualquer tabela.

Eu já não queria apenas saber quem era quem.

Queria entender que aspecto da vida cada uma dessas forças ajudava a revelar.

Qualidades de Orixás: quando cada força revelou profundidade

Depois de perceber a vastidão desse universo, comecei a encontrar outra camada de compreensão: as qualidades dos Orixás.

Até então, eu ainda olhava para cada Orixá como uma grande força associada a determinados elementos da natureza e aspectos da vida.

Mas, aos poucos, fui percebendo que cada um deles também podia se manifestar de diferentes formas.

Uma qualidade de Orixá é uma forma específica pela qual aquela força se manifesta, com histórias, relações e caminhos próprios.

Ogum, por exemplo, não é apenas uma ideia geral de caminho, ferro e força.

Há qualidades de Ogum que expressam essa energia de maneiras diferentes.

Ogum Xoroquê, por exemplo, traz uma relação muito particular entre Ogum e Exu.

Com Oxóssi, algo parecido acontece.

Ao longo do tempo, fui conhecendo nomes como Inlé, Ibualama e Otim, que ampliaram minha percepção sobre essa força ligada à mata, à caça e ao conhecimento.

Foi nesse momento que comecei a enxergar os Orixás de forma menos rígida.

Os nomes que eu havia aprendido continuavam importantes.

Mas já não pareciam definições completas.

Eram portas de entrada.

A tabela dizia “Ogum”, mas não dizia todos os caminhos de Ogum.

Dizia “Oxum”, mas não dizia todas as águas de Oxum.

Cada nome já era um mundo.

O arco-íris e os muitos rios de Oxum

Gosto de pensar nos Orixás a partir da imagem do arco-íris.

Aprendemos que ele tem sete cores.

Isso nos ajuda a olhar, ensinar e lembrar.

Mas ninguém observa um arco-íris com atenção e encontra apenas sete faixas rígidas.

Entre uma cor e outra existe passagem.

Existe mistura.

Existe uma infinidade de tons.

Talvez com os Orixás aconteça algo parecido.

Nós nomeamos essas forças para conseguir nos aproximar delas.

Mas os nomes não esgotam a presença.

Eles ajudam, orientam e abrem uma porta.

Penso muito nisso quando olho para Oxum.

Costumamos falar de Oxum como Orixá dos rios, das águas doces, do amor e da fertilidade.

Mas quantos rios existem?

Há rios largos e estreitos.

Calmos e violentos.

Transparentes e escuros.

Rios que contornam pedras, transbordam ou seguem escondidos pela mata.

Se existem tantos rios, talvez também existam muitas formas de Oxum se manifestar.

Uma Oxum que acolhe.

Outra que protege.

Outra que encanta.

Outra que ensina limites.

Quando comecei a pensar assim, Oxum deixou de ser apenas um conjunto de atributos.

Ela passou a ser uma imagem viva.

E uma imagem viva nunca cabe inteira em uma frase simples.

As cores que a gente aprende a olhar

Hoje, ainda reconheço a importância das primeiras tabelas.

Elas me ajudaram a organizar nomes, cores, elementos da natureza e atributos dos Orixás.

Mas não quero parar nelas.

Porque talvez os Orixás sejam mesmo como o arco-íris.

A gente aprende algumas cores para conseguir olhar.

Mas, quando se aproxima com calma, percebe que existe uma infinidade de tons entre uma e outra.

Antes de qualquer tentativa de definição, vieram os rios, os ventos, as matas, as pedras e os caminhos.

Vieram as forças maiores que sustentam a vida.

Aprender sobre os Orixás, para mim, foi primeiro aprender a olhar para essas forças.

Não apenas como categorias.

Mas como presenças vivas.

A gente começa com nomes.

Depois encontra imagens.

Depois percebe caminhos.

E, quando olha de novo, percebe que aquilo que parecia uma tabela era apenas a primeira forma de enxergar algo muito maior.

Talvez por isso eu tenha levado tanto tempo.

E talvez esteja tudo bem que seja assim.

Algumas coisas não se revelam de uma vez.

Elas precisam ser ouvidas nos pontos cantados, percebidas na atmosfera da gira e reconhecidas na natureza.

Sentidas muitas vezes antes de serem compreendidas.

Entre mundos.

E talvez algumas cores só apareçam quando a gente aprende a olhar mais devagar.