Quando deixei de ser cambono chefe diante do congá

Quando deixei de ser cambono chefe diante do congá

Às vezes, um ciclo termina antes que estejamos prontos para soltá-lo. Naquela noite, deixei de ser cambono chefe no terreiro. Só depois entendi que algumas portas se abrem justamente quando outra precisa se fechar.

Quando uma consequência aparece dentro da gira

Naquela noite, antes mesmo da gira — a sessão espiritual de Umbanda — começar, eu já sabia que algo estava diferente.

Eu havia cometido um erro.

Não um erro ligado diretamente ao atendimento espiritual, nem a uma função prática dentro da gira. Foi algo mais humano, mais cotidiano e, talvez por isso mesmo, mais difícil de olhar com clareza.

Eu tinha levado um conflito para dentro da corrente mediúnica — o grupo de médiuns que trabalha espiritualmente durante a gira.

E talvez justamente por isso aquele conflito tenha tido outro peso.

Naquele contexto, uma atitude individual nunca ficava apenas no indivíduo.

Ela tocava o trabalho.

Tocava a casa.

Tocava a confiança que sustentava aquele espaço.

O Caboclo Tupinambá me chamou e falou comigo com a firmeza que eu já conhecia.

Não foi uma fala agressiva.

Mas também não foi uma fala sem peso.

Ele me explicou que o trabalho mediúnico precisava estar acima de qualquer outra coisa. Acima das preferências pessoais. Acima das mágoas. Acima dos impulsos. Acima da vontade de ter razão.

Naquele momento, eu não tinha muito o que responder.

Havia algo muito claro no que ele dizia.

Eu podia até tentar explicar minhas razões. Mas, no fundo, sabia que o ponto principal não era esse.

O ponto era que eu tinha atravessado o trabalho com algo que não deveria ter sido levado para dentro dele daquela forma.

E, por isso, uma consequência precisava ser vivida.

A última noite como cambono chefe

Foi então que ele me disse que aquela seria minha última noite como cambono chefe.

Na Umbanda, o cambono é a pessoa que auxilia a entidade durante a gira, acompanha o atendimento e ajuda a sustentar, de forma prática e atenta, parte do trabalho espiritual que acontece ali. O cambono chefe, naquele contexto, tinha uma responsabilidade ainda mais próxima da entidade que conduzia a casa.

Na época em que assumi essa função, eu não imaginava o quanto ela me transformaria.

Eu ainda não entendia a dimensão daquele lugar.

Com o tempo, porém, ser cambono chefe foi deixando de ser apenas uma função dentro da gira e se tornando uma escola silenciosa.

Aprendi sobre atenção.

Sobre escuta.

Sobre presença.

Sobre responsabilidade.

Sobre a importância de perceber o movimento da gira sem precisar estar no centro dele.

Aprendi também que uma função espiritual não existe para dar importância a quem a ocupa.

Ela existe para servir ao trabalho.

E talvez esse tenha sido um dos maiores aprendizados daquele período.

Por isso, quando ouvi que aquele ciclo estava se encerrando, a sensação não foi apenas de compreender uma consequência.

Foi também de perda.

Não a perda de um posto.

Não a perda de um título.

Mas a perda de um lugar que, com o tempo, eu tinha aprendido a habitar.

Naquela noite, uma pergunta antiga voltou:

onde é o meu lugar aqui agora?

Ajudar outra pessoa a chegar

O Caboclo Tupinambá chamou outra pessoa para camboná-lo.

E, como tinha acontecido comigo no meu primeiro dia, pediu que eu auxiliasse essa pessoa durante a gira.

Aquilo me marcou.

Porque havia uma continuidade ali.

Eu não estava simplesmente deixando uma função.

Eu estava ajudando alguém a entrar nela.

De certa forma, o mesmo movimento que um dia tinha me colocado naquele lugar agora me pedia para acompanhar outra pessoa chegando.

Só que, dessa vez, eu estava do outro lado.

Durante a gira, tentei fazer o que me foi pedido.

Auxiliei o novo cambono.

Mostrei o que precisava ser feito.

Ajudei no que pude.

Tentei permanecer atento ao trabalho, mesmo com tudo se movendo dentro de mim.

Por fora, talvez a noite seguisse quase normalmente.

A gira continuava.

Os cantos continuavam.

As pessoas chegavam.

Os atendimentos aconteciam.

Mas, por dentro, eu sabia que aquele ciclo estava terminando.

E, mesmo entendendo a razão, isso não tornava a experiência simples.

Talvez porque a gente costume falar muito sobre aprender a assumir responsabilidades, mas fale menos sobre aprender a deixá-las.

Assumir uma função exige maturidade.

Mas sair dela também exige.

Às vezes, exige ainda mais.

Não porque sair seja necessariamente uma derrota.

Mas porque sair nos obriga a reconhecer que o trabalho continua mesmo quando o nosso lugar muda.

Diante do congá

Perto do final da gira, depois de algum tempo auxiliando o novo cambono, o Caboclo Tupinambá me chamou novamente.

Eu me aproximei sem saber exatamente o que esperar.

Talvez pensasse que ele ainda fosse me dizer algo sobre o encerramento daquela função.

Talvez esperasse uma última orientação.

Talvez eu nem soubesse o que esperava.

Foi então que ele me disse que queria me dar algo.

Depois de quase cinco anos dentro daquele terreiro, ele me colocou diante do congá, o altar da casa.

Eu já tinha estado muitas vezes diante dele.

Mas, naquela noite, foi diferente.

Ele me pediu para me concentrar.

Não vou tentar descrever tudo o que aconteceu ali.

Há experiências que perdem algo quando são explicadas demais. E há partes da vida espiritual que talvez precisem continuar guardadas no lugar da experiência, não da descrição.

Mas posso dizer que, naquele momento, uma pergunta antiga encontrou resposta.

Durante muito tempo, eu me perguntava se um dia sentiria algo de forma clara.

Eu via outras pessoas falarem de presença, de força, de guia, de entidade, de firmeza, de energia.

Eu escutava.

Observava.

Tentava entender.

Mas uma parte de mim ainda perguntava em silêncio:

será que um dia eu vou sentir alguma coisa?

Naquela noite, senti.

Não foi algo que aconteceu de repente, como se uma chave tivesse sido virada em um segundo.

Foi algo que começou pequeno.

Quase discreto.

Depois foi crescendo.

Ganhando força.

Tomando espaço.

Era algo intenso, meio descontrolado, mas ao mesmo tempo certo.

Certeiro.

Como se houvesse uma confiança atravessando a minha desconfiança.

Uma direção aparecendo no meio da minha incerteza.

Eu não sabia quem era.

Não sabia como nomear.

Não entendia o que estava acontecendo com clareza.

Mas havia uma certeza ali que não vinha apenas de mim.

Foi naquela noite que conheci um dos guias que trabalham comigo.

O caboclo que me guia.

Quando algo novo aparece antes da gente entender

Por algum tempo, fiquei tentando sustentar aquela experiência por dentro.

Não era apenas emoção.

Também não era apenas surpresa.

Era como se algo tivesse se apresentado antes que eu tivesse palavras para compreender.

E talvez por isso o momento tenha sido tão forte.

Porque ele não apagava o que tinha acontecido naquela noite.

Eu continuava deixando de ser cambono chefe.

A consequência continuava existindo.

O ciclo continuava se encerrando.

Mas, ao mesmo tempo, algo novo começava a se abrir.

Não como recompensa.

Não como prêmio.

Não como uma forma de dizer que tudo tinha ficado bem.

Mas como continuidade.

Como se o fim de um lugar não significasse o fim do caminho.

Quando aquele momento terminou, o Caboclo Tupinambá falou algo que ficou marcado em mim.

Disse que, quando uma porta se fecha, muitas outras se abrem.

Naquele momento, essa frase não soou como consolo fácil.

Soou como constatação.

Uma porta tinha se fechado.

Eu não estava mais no lugar onde tinha estado até então.

Mas algo tinha se aberto diante do congá.

Algo que eu ainda não sabia compreender.

O que permanece de uma função espiritual

Depois disso, o Caboclo Tupinambá anunciou que meu trabalho como cambono chefe tinha se finalizado.

Agradeceu pelo caminho vivido até ali.

E então apresentou aquela nova pessoa, que eu havia auxiliado durante toda a gira, como o novo cambono chefe do terreiro.

Aquilo fechou o movimento da noite de uma forma muito forte.

Porque não se tratava apenas de eu sair.

Tratava-se também de alguém entrar.

A função continuava.

O trabalho continuava.

A casa continuava.

E talvez essa seja uma das coisas mais importantes de aprender quando estamos muito envolvidos em uma função: o trabalho não depende da nossa permanência no mesmo lugar.

Nós participamos.

Servimos.

Aprendemos.

Erramos.

Crescemos.

Às vezes sustentamos algo por um tempo.

E depois precisamos sair daquele ponto para que outra pessoa também possa ocupar, aprender e servir.

Hoje consigo olhar para aquele momento com mais serenidade.

Não como uma noite apenas de perda.

Mas como uma noite de passagem.

O tempo como cambono chefe não foi apagado pela forma como terminou.

Ele continuou comigo.

Na atenção que aprendi a ter.

Na escuta.

No cuidado.

Na responsabilidade.

Na percepção de que o trabalho espiritual é sempre maior do que qualquer função.

E talvez seja isso que algumas etapas deixam quando chegam ao fim.

Não apenas a lembrança do encerramento.

Mas tudo aquilo que foi construído enquanto caminhávamos por elas.

Quando um ciclo termina, o caminho continua

Com o tempo, fui entendendo aquela noite de outra forma.

Na hora, ela parecia principalmente um fim.

O fim de uma função.

O fim de um lugar.

O fim de uma forma de estar dentro da gira.

Mas hoje me parece que foi também uma das noites mais importantes da minha caminhada dentro da Umbanda.

Não porque tenha sido fácil.

Não porque eu tenha saído dela com tudo resolvido.

Mas porque ela reuniu, em uma mesma noite, três movimentos difíceis de separar.

A consequência de um erro.

O encerramento de uma função.

E o começo de uma nova relação com a minha própria mediunidade.

Naquela noite, eu deixei de ser cambono chefe.

Mas não perdi o caminho.

Pelo contrário.

Foi justamente ali, diante do congá, no meio do encerramento e da incerteza, que algo novo começou a se mostrar.

Eu ainda não sabia nomear.

Ainda não sabia compreender.

Ainda não sabia o que aquilo exigiria de mim.

Mas alguma coisa tinha se aberto.

E talvez alguns começos sejam assim.

Eles não chegam separados daquilo que terminou.

Não chegam depois que tudo está perfeitamente resolvido.

Às vezes, eles nascem exatamente no lugar onde um ciclo se encerra.

Entre mundos.

E talvez algumas portas só se abram quando aceitamos, de verdade, que outra precisou se fechar.